WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Análise: Martinho da Vila se tornou um gênero musical

Mesmo os deslizes do artista que canta o que é, como o cometido em 1975 com 'Você Não Passa de Uma Mulher', revelam a verdade em estado de samba

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 06h00

Martinho da Vila parecia um pouco descolado em um cantinho da cobertura de um hotel de luxo no Rio de Janeiro. Era uma festa para comemorar a abertura de um grande festival de música e o sambista era um dos convidados. Um luxo só, mas Martinho apenas sorria, desconcertado, como dizendo que seu samba era em outro terreiro.

Se os artistas refletem em suas músicas aquilo que são em suas vidas, Martinho é um dos exemplos maiores. Seu tempo é outro, do caminhar, do falar e do pensar. Logo, seu samba é dos mais cadenciados de que se tem notícia. Como teste, tente aumentar o andamento de Casa de Bamba ou de O Pequeno Burguês, tente cantar Mulheres ou Quem É do Mar Não Enjoa em ritmo mais acelerado do que o da vida de Martinho. Os percussionistas vão se entreolhar e sorrir entre eles, como se dissessem “tá aí mais um que não entende nada de Martinho da Vila”.

O naturalismo de Martinho, refletindo o que seu tempo também dizia, deixou a coisa feia por ao menos uma vez. Foi em 1975, quando ele lançou Maravilha de Cenário. A letra de Você Não Passa de Uma Mulher, hoje, o jogaria na fogueira. Na época deu confusão também, promovida pela primeira geração do feminismo no Brasil, mas nada comparado ao que seria se esses versos viessem à tona em 2018. “Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa, mulher / Você não passa de uma mulher (ah, mulher) / Mulher tão bacana e cheia de grana, mulher / Você não passa de uma mulher (ah, mulher) / Olha que moça bonita / Olhando pra moça mimosa e faceira / Olhar dispersivo, anquinhas maneiras / Um prato feitinho pra garfo e colher / Eu lhe entendo, menina / Buscando o carinho de um modo qualquer / Porém lhe afirmo, que apesar de tudo / Você não passa de uma mulher (ah, mulher).”

Uma vez traído pela falta de freio de seu naturalismo, Martinho passaria raspando tempos depois, em 1995, quando lançou em Tá Delícia, Tá Gostoso o samba Mulheres, de Toninho Geraes. O disco, por sinal, vendeu incríveis 1 milhão de cópias quando a indústria começava a entrar em colapso por causa da pirataria de CDs. “Já tive mulheres de todas as cores / De várias idades, de muitos amores / Com umas até certo tempo fiquei / Pra outras apenas um pouco me dei / Já tive mulheres do tipo atrevida / Do tipo acanhada, do tipo vivida / Casada carente, solteira feliz / Já tive donzela e até meretriz...”

A redenção viria na mesma música, quando fecharia toda a ideia de sua cigania amorosa com uma única frase: “Mas nem uma delas me fez tão feliz como você me faz”. Autor de 12 livros, pai de oito filhos, dono de uma discografia que começa em 1968, na RCA Victor, dedicado historicamente à agremiação Unidos de Vila Isabel, torcedor do Vasco da Gama, pesquisador da cultura afro-brasileira, Martinho de tornou um gênero de samba. Sua música tem uma divisão específica, uma entonação despreocupada e uma letra que, mais do que fazer poesia, só quer se encaixar na vida de qualquer um que a cante.

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