Alexandre Moreira/ Divulgação
Alexandre Moreira/ Divulgação

Análise: Maria Bethânia mostra que não é perfeita

Quando ela mesma faz a curiosa distinção dizendo-se uma intérprete e não uma cantora, a baiana se protege de suas fragilidades técnicas e intuitivas bem conhecidas dos músicos. Aí vem o espetáculo, e a carga de Bethânia atropela tudo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 04h00

A voz de Maria Bethânia tem um poder de suprimir muito do que poderia ser usado contra a voz de Maria Bethânia. Se o teatro lhe deu o ar de majestade e a impostação no limite entre a verdade e a ficção, algo que em alguma medida a distancia de audiências que não conversam com esse registro, Santo Amaro da Purificação lhe deu um chão valioso. Mais do que um ato cênico, cantar descalça deve ser para ela uma necessidade emocional. Sem passado, Maria Bethânia levantaria um voo suicida nas asas do ego gigante, reforçado por uma corte de amigos, músicos, fãs e jornalistas que se curvam à sua figura todos os dias como se ela própria fosse uma entidade sobrenatural.

A magia de Bethânia vive em sua natureza. Ela tem um carisma público messiânico, uma presença privada misteriosa, de mais respeito do que graça, e uma cor de voz irreprodutível a ponto de, ao contrário de Gal e Elis, impossibilitar a criação de uma “escola Bethânia” mais visível. Querer reproduzir um de seus médios ou graves com a mesma intenção teatral é dar-se um tiro no peito. Humoristas se dão bem, cantoras não. A mulher de fora, rosto duro e cabelos naturais, completa a de dentro, decisões irrevogáveis e poucas palavras. E, assim, forma-se o mito que ninguém ousa contrariar.

Os gigantes também têm suas fraquezas e, com Bethânia, não é diferente. Ela mesma faz uma espécie de distinção quando diz aos mais próximos não ser uma cantora, mas uma intérprete. E o que seria isso? Bethânia, com essa frase, se protege das fragilidades técnicas e intuitivas de sua personalidade musical. Cantores, intuitivos ou não, são seres dotados de capacidades de interpretação com todas as habilidades de um músico. Eles se entregam com um ouvido nos versos que cantam e outro na tonalidade, nas modulações, nas deixas de improviso, nas mudanças de ritmo e de andamento. A intérprete Bethânia se joga na poesia, fazendo da música apenas o seu suporte. O show vai acontecer de qualquer forma e será grandioso por tudo o que ela traz, mas os músicos sabem que é preciso ajudá-la a entrar e a permanecer na canção, servindo-a como garçons gentis e sem surpresas.

Um episódio que marcou sua carreira aconteceu em 2012 com o seu ex-arranjador e diretor musical, o violonista Jaime Alem, que só para ela prestou serviços por 25 anos. Durante uma apresentação, Bethânia se incomodou com a introdução de 'Serra da Boa Esperança', feita ao violão, e mandou parar. “Está completamente distorcido para mim. Você está tocando três ou quatro tons acima ou abaixo do que o que eu tenho que cantar. É difícil, impossível.” Jaime refez a introdução, mas não a satisfez. “Não.” O público aplaudiu. Impaciente, veio o ultimato: “Tem alguma solução? Porque eu estou diante de um público, vamos fazer profissionalmente as coisas...”. Segundo músicos que ouvem o registro ainda hoje em um vídeo no YouTube, o tom de Alem estava certo.

Ver Bethânia antes do palco é uma oportunidade do DVD 'Abraçar e Agradecer', lançado agora pelo selo Biscoito Fino. Além do show, ele narra em belas imagens os momentos de camarim que antecedem o palco. É ela quem cuida de seus cabelos, dos olhos e do batom. Depois, fica em frente ao espelho por uma hora, repassando o show na memória com suas sequências e emendas. Chama os músicos para uma oração e, então, retira os calçados para colocar os pés no chão e chegar ao palco. A palavra é a salvação de Maria Bethânia.

Mais conteúdo sobre:
Jaime AlemYouTubeDVD

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.