Pedro Galiza/Divulgação
Pedro Galiza/Divulgação

Análise: 'Mac DeMarco quebra o gesso blasé do indie'

Integrantes da banda O Terno escrevem suas impressões sobre o show do canadense, realizado no último sábado, 21

Tim Bernardes e Guilherme D'Almeida, Especial para o Estado

22 de novembro de 2015 | 14h44

Martim Bernardes (ou Tim) e Guilherme D'Almeida (conhecido como Peixe), integrantes do trio O Terno, foram ao Balaclava Fest, realizado neste sábado, 21, na Audio Club, para conferir de perto o show do canadense amalucado Mac DeMarco, principal atração da noite. Abaixo, eles escreveram suas impressões sobre a performance do músico com quem eles dividirão o palco no Festival Coisarada, em Curitiba. 

Crítica: Mac DeMarco se joga no público e promove festejo indie em São Paulo. Leia mais. 

O Terno e DeMarco são atrações do festival curitibano que acontece na próxima quinta-feira, 26, a partir das 20h, no Music Hall (Rua Engenheiro Rebouças 1645, Rebouças), com ingressos de R$ 125 a R$ 310. 

Leia, abaixo, o relato assinado pelos dois integrantes d'O Terno:  

"E lá fomos nós empolgados para o Audio Club, casa de shows grande na zona oeste de São Paulo, assistir à esperada atração do indie mundial (e que nós somos fãs), Mac Demarco. É a segunda vez que o selo Balaclava Records, aqui de São Paulo, traz o canadense para o País e é visível o quanto ele cresceu da última visita pra cá. Mahmed e Terno Rei, ambas brasileiras e do selo, abriram a noite, entregando um Audio Club cheio (o que quer dizer um belo bocado de gente) para o início do show de DeMarco.

É bem curioso e divertido observar a máscara blasé do público hipster paulistano cair, revelando uma plateia carente e eufórica recebendo aos berros o canadense e sua banda excêntrica. A plateia era uma espécie engraçada de desfile das tendências hipsters, com um bocado de garotos "à caráter", fantasiados de Mac DeMarco, com os bonezinhos, macacões, calças nas canelas e toda essa nostalgia anos noventa, inusitada até recentemente, que parece rodear a estética do canadense.

DeMarco é muito carísmatico. As canções são simples e bonitas, têm um astral muito bom. O clima brincalhão e despreocupado da banda como um todo dá leveza para um ambiente indie no qual a pose e o "blasé" costumam pesar e engessar tanto as coisas. Isso talvez ajude a responder à aquestão que fazemos assistir ao show dele: "Por que, de tantas bandas e artistas na cena indie mundial hoje, o Mac DeMarco realmente se destaca e parece especialmente cativante?".

Parece que tem algo no clima, no pacote completo. As canções são pop, simples, bem feitas, bem tocadas, com uma estética própria, mas sem serem exageradamente enfeitadas ou recheadas de artifícios para, propositalmente, chamar a atenção. Isso casa com a estética dos clipes, os vhs freak, casa com o tipo de personagem engraçado que ele parece ser e com o show despretensioso. 

E o legal é que isso não aparenta ser feito de um modo fabricado, ao contrário do que a gente está muito acostumado a ver nessa cena hoje. É, pelo contrário, uma deliciosa despreocupação. Para um público indie que estava acostumado a ver um show com os integrantes do Strokes paradinhos no palco ou de um Tame Impala com um show sonoramente impecável (e nada contra nenhum dos dois!), assistir a uma apresentação de Mac DeMarco é uma loucura. Sem dúvida alguma, ele tira esse público do lugar onde ele costuma se encontrar vendo um show ultimamente. O músico faz um mosh, fuma um cigarro (Oh! num lugar fechado em São Paulo!?), se empoleira nos parapeitos do mezanino do Audio Club para então pular de volta na galera enquanto sua banda improvisa uma tosqueira maluca, quase um "shreds" (pra quem não conhece 'shreds', pode por no youtube e garantir uma tarde de diversão), pouco se importando se o som está bom ou não. Eles querem se divertir. 

O clima "zoando com meus brothers", ainda assim entregando com categoria música boa para a platéia. Acaba transcendendo as traves técnicas ou problemas de som que podem rolar. E isso é o mais chocante e atraente para esse público que não foi em show de punk, nem de metal ou coisa assim. Público que é o indie do indie (e dizendo tudo isso sem juízo de valor, nós inclusive) e não estava acostumado à essa loucura que sai da forma engessada de costume. 

De poder voltar para o bis, depois dos incansáveis pedidos da plateia, e ao invés de tocar alguns dos "hits" que não couberam no setlist tocar um hit, nada cult, do Metallica e f...-se (o bis do show foi realmente "Enter Sandman", do Metallica). Com o inocente-quase-fofo baixista tocando em cima das caixas do P.A. com a cabeça quase batendo no teto do pé direito alto do lugar, o guitarrista se contorcendo em cima do amplificador que ameaçava cair, o tecladista sentadinho, tranquilo, com um chocalho na mão, e Mac terminando show dando berros no microfone e tocando a guitarra com o pé. E a gente sai do show e vai pra casa empolgado cantarolando as singelas e bonitas canções de amor que ele faz."

Mais conteúdo sobre:
Música

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.