Rafael Arbex|Estadão
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Análise: Lobão, uma celebridade indecisa que se colocou para o espancamento público

Há muito tempo, nem sabemos que tipo de esporte o músico joga, então as caneladas só tendem a piorar

Ricardo Alexandre, Especial para o Estado

03 de abril de 2016 | 04h00

O dicionário, esse livro de coração puro, não vê nenhum problema na conotação que a palavra “celebridade” tem. “Famoso”, “notável”, “aquele que tem grande fama”. Mas a gente sabe que, na era das redes sociais, da indústria da fofoca, da mídia em tempo real, “celebridade” virou ofício dos que, pelos mais variados caminhos, transformam sua persona publica em ganha-pão, que dão autógrafos e entrevistas pelo que são, não pelo que fazem.

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Há quase 20 anos, Lobão tomou o caminho mais tortuoso e dolorido para, mesmo sem querer, chegar ao ponto em que está hoje: lançando um disco moderno e instigante que não será ouvido nem debatido, tampouco será levado a sério e, pelo andar da carruagem, nem tocado ao vivo será. E, daqui 20 anos, provavelmente nos lembraremos mais da “carta aberta” que o lobo escreveu a Chico, Gil e Caetano, do que de (boas) músicas como Assim Sangra a Mata. E pode apostar que não lembraremos com nostalgia.

Entre brigas com as gravadora e pazes com as gravadoras, entre programas na MTV e revistas indie, entre impropérios a Caetano e desculpas pra Caetano, biografias mais largas que a do Keith Richards e passeatas contra o PT, Lobão foi se esquecendo de que nenhum artista é maior do que a sua arte. Por mais que tenha feito de si sua própria tela em branco, a qual rasura, rabisca e recria diante do público, Lobão foi se distanciando do tempo em que podia ser eleito o melhor show do Hollywood Rock e alternava hits nas FMs como Rádio Bla, Essa Noite Não e Me Chama. Foi se apequenando e sumindo, por mais que estivesse o tempo todo como trending topic.

Hoje, há mais tempo entre O Rigor e a Misericórdia e seu último hit (A Queda, lançada há exatos 20 anos) do que entre os ultraclássicos da MPB e o momento em que Lobão resolveu abrir fogo contra Gil, Caetano e Chico. E desde os anos 1990, Chico fez Paratodos, Caetano fez Cê, Gil gravou Esperando na Janela, enquanto Lobão falava, falava, falava, falava e construía para si uma estatura de independência e dignidade que obviamente não seria capaz de cumprir.

Quando o antipetismo eclodiu como o maior movimento político brasileiro desde o Fora Collor, Lobão se ofereceu como uma das vozes mais virulentas, ainda que confusas. Mas virou celebridade que “fala o que pensa” “contra tudo o que está aí” “sem medo do governo”, com likes, compartilhamentos e repercussão nas redes sociais. Então, sua música ficava cada vez mais em quarto ou quinto plano.

Curiosamente, as mesmas redes sociais que garantiram sua sobrevivência midiática soaram cruéis com o músico. Foi por causa delas que todos zombamos quando ele desistiu de ir “embora do Brasil se a Dilma ganhar”, foi por meio delas que rimos do trote do Pânico se fazendo passar por Mano Brown em telefonema contra Lobão, foi nelas que soubemos que nem Chico, nem Gil, nem Caetano leram sua “carta aberta”.

Agora, quando o antigolpismo parece substituir o antipetismo na vibração coletiva nacional, Lobão paga um preço alto, mas longe de ser injusto. Porque aquele que se oferece como personagem e usa de sua opinião como abre-alas para sua arte, invariavelmente, vai ser massacrado com o rigor (e a falta de misericórdia) típicos dos ataques pessoais. Como dizia o velho ditado escocês, pouco em voga no debate político brasileiro, o correto é ir sempre na bola, não no jogador. Há muito tempo, nem sabemos que tipo de esporte Lobão joga, então as caneladas só tendem a piorar.

RICARDO ALEXANDRE É JORNALISTA, ESCRITOR, DOCUMENTARISTA E RADIALISTA, AUTOR DE DIAS DE LUTA: O ROCK E O BRASIL DOS ANOS 80

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