Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Análise: Kick Bucket mostra que a rua é o mais implacável juiz dos músicos

Sobreviver num laboratório de testes tão duro como este mostra que eles têm tutano pra ir bem mais longe

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 Março 2017 | 05h00

“Não se preocupe se uma vaca preta der leite branco. Apenas beba o leite.” A tirada hilária de Louis Armstrong cabe como uma luva na atuação de Bruno Kioshi barbarizando em sua bateria de baldes de plástico em plena avenida Paulista. Se você fechar os olhos e apenas ouvir sua performance, ficará admirado do modo como ele tira sons tão instigantes de sua bateria. Abertos os olhos, os baldes lado a lado constituem um instrumental tão primário que você não acredita. E, de quebra, ainda vira as baquetas no ar enquanto mantém um groove que não deixa parada a plateia - no caso, os chamados “transeuntes”.

Os vídeos no youtube mostram Kioshi às vezes acompanhado de um sax-tenor/soprano (Thiago Kim) e um tecladista (El Cid), ora com um baixo elétrico (Levy Santiago). É um trabalho que ainda tem longa estrada pela frente. Eles precisam formar um repertório autoral mais consistente. O melhor disponível no youtube são duas boas performances (Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, e Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia).

 

Na verdade, eles repetem quase sempre o mesmo “riff” em uníssono no sax, teclado e baixo, sobre a torrencial e polirítmica bateria de baldes de Kioshi. Os improvisos do sax e do teclado são convencionais. A bateria bizarra é a razão de o grupo atrair o público que passa. Agora, a missão é de fato construir música com DNA próprio, original. Bruno pode ter visto -- como eu no youtube -- um sujeito chamado Matthew Pretty. Pura acrobacia. Há uma performance sensacional dele em 2014 em Las Vegas, na rua. Sua bateria é igualzinha à de Bruno. Ele optou pelo one man show. Explora muito mais o malabarismo das baquetas, é ainda mais circense.

Circo talvez seja a palavra-chave neste tipo de performance. No bom sentido. A frase de Armstrong lá de cima me veio à cabeça porque ele, o primeiro grande solista do jazz, mudou para sempre o gênero em 70 faixas de bolachões 78 rotações com seus Hot Five e Hot Seven, fazendo “mágica” diante do público. Aprendeu com o vaudeville, em que o artista tem de divertir o público e empilhar novidades de tirar o fôlego. Nos anos 1920, o trompetista Kid Rena reclamou que Armstrong estava imitando um clarinete. “Está só se exibindo”, denunciou como quem desmascara o mágico revelando seu segredo diante do público.

Nos Estados Unidos, um dos movimentos de música contemporânea mais atrevidos é o Bang on a Can, algo como batendo lata, nascido em 1987.

 

Eles criaram em 2009 uma “walking band”, Asphalt Orchestra, para anunciar pelas ruas de Manhattan sua maratona annual de concertos, tocando Zappa, Charlie Mingus e música contemporânea. É assim, indo aonde o público está - ou passa - que se fazem hoje as revoluções na música.

A rua é o mais implacável juiz e são raros os que a enfrentam de peito aberto. Como Armstrong, Bang on a Can e estes meninos. Por isso, merecem respeito. As pessoas param porque eles têm muito swing. Sobreviver num laboratório de testes tão duro como este mostra que eles têm tutano pra ir bem mais longe. 

 

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