José Patricio/Estadão
José Patricio/Estadão

Análise: José Rico e a longa estrada da vida

Ele nunca precisou aparecer mais do que suas músicas

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

03 Março 2015 | 17h22

A longa estrada da vida de Milionário e José Rico não termina aqui. Mais do que a união bem sucedida e lucrativa desde 1973, quando lançaram o primeiro disco, estes dois homens são um ponto de parada obrigatória na linha do tempo inaugurada por Cornélio Pires no final da década de 1920. Seu público invisível é um gigante que já consumiu 35 milhões de cópias de seus LPs e sua carreira funciona mais nas boleias dos caminhões e nas emissoras de rádios do grande Brasil do que em esquemas de promoção viciados ligados à TV. Milionário e José Rico, vivendo na liberdade que só existe fora das cidades grandes, nunca precisaram aparecer mais do que suas músicas.

Vivi na pele uma prova do desdém que sentiam pela grande imprensa. Marcamos pelo jornal uma entrevista com os dois em Presidente Prudente, a 558 quilômetros de São Paulo. Era a chance de pegá-los juntos, missão só possível na estrada. Queria entender e me aprofundar em uma das histórias mais saborosas da música brasileira, desmascarar ou comprovar mitos, ouvi-los como o biografismo que ratifica os eleitos em detrimento dos esquecidos não se interessa em fazer. Pois chegamos na distante cidade, eu e o fotógrafo do jornal, e minhas vistas quase se escureceram diante de tanta crueldade. Nem Milionário nem José Rico apareceram. Nem mandaram notícias. Apenas não foram.

Entendi o recado. Era como se perguntassem o que um maldito jornalista fazia em seu encalço, um representante da mesma mídia que jamais lhes dera uma nota de espaço. O W.O., contudo, me deixava à vontade para criar minhas suposições. Algumas pessoas diziam que os dois não se falavam, que só se encontravam no palco para cantar. Cantavam e saiam já separados. Não sei se procede, até porque os vi recentemente em um programa de carros da Globo sorrindo como irmãos.

Milionário e José Rico são personagens da música sertaneja iniciada na década de 1970, a mais cruel delas por ter sido cimentada sob a melhor era da música brasileira urbana. A concorrência era dura. Tim Maia, Roberto Carlos, Gil, Caetano, Chico, Milton e o diabo pareciam disputar para ver quem produzia, um após o outro, os melhores álbuns. Sobrava ao sertanejo o Brasil que o Brasil não via. E, assim, a dupla aproveitava para colocar harpas e metais mexicanos em canções de alma caipira, pavimentando as primeiras estradas de asfalto em um universo de terra batida. Os caminhoneiros distribuíram suas músicas pelo País e seus nomes ganhavam uma das maiores bases de fãs do Brasil que o Brasil não ouvia.

José Rico, 68 anos, criou também uma primeira voz sem similares. Cantou por anos com uma das mãos próximas ao ouvido esquerdo, usando-a como concha para fazer o próprio retorno, e jamais abandonou os óculos escuros. Chegou a se separar do amigo por três anos, depois da gravação do disco de 1991, muito depois de já estarem imortalizados pela Estrada da Vida, de 1977.

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