REUTERS/Mike Blake
REUTERS/Mike Blake

Análise: Grammy foi tão conservador quanto um eleitor de Donald Trump

Ninguém ali está procurando por novidades e discursos politizados e de forte contestação não são bem-vindos

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 20h25

Uma primeira análise poderia pegar carona na frase de Frank Ocean justificando o que o fez ignorar todo o barulho e nem sequer inscrever seus dois discos mais recentes, Endless e Blonde, para concorrer à premiação do Grammy: “Certamente, essa instituição tem uma importância nostálgica. No entanto, ela não representa muito bem as pessoas que vêm de onde eu venho, e que aguentam o que eu aguento”, afirmou ao jornal The New York Times.

Quem liga para o Grammy? De que vale uma estatueta dessas na estante da sala? O que muda na vida de quem a leva?

A atitude de Ocean é respeitável, mas vai contra o que ele mesmo faz. Se quer ser mais coerente, precisa romper de fato com a indústria que o criou, a mesma de Jay-Z e Kanye West, e trilhar sua vida artística nos porões do underground. Se não fará isso, não adianta jogar pedras na premiação que simboliza apenas um dos estágios da linha de produção dos ídolos de massa criados pela única nação ainda capaz de fazê-los.

O Grammy importa, sim. Ao contrário de equivalentes brasileiros, como o Prêmio da Música Brasileira ou Prêmio Multishow da Música Brasileira, com todas as proporções resguardadas, ser a bola da vez por uma temporada pode amplificar planetariamente os ecos de uma carreira em curva ascendente. Foi depois de sair com alguns gramofones nos braços que Pharrell Williams e Sam Smith, por mais deficientes que ainda fossem para encarar plateias acima de 30 mil fãs, vieram parar até no Brasil.

Kendrick Lamar, coincidência ou não, parece abatido depois de perder a disputa de melhor álbum do ano para Taylor Swift em 2016. Há um ano, era ele, justificadamente, a promessa do rap, com a recriação de uma linguagem que o aproximava do jazz com uma liberdade jamais experimentada. Hoje, andamos dez passos para trás e colocamos no mesmo posto o jovem Chance the Rapper.

A vitória de Adele superando Beyoncé requenta o debate de 2016 (de Taylor versus Lamar) e fortalece os argumentos de quem vê posicionamentos racistas nas escolhas. Mas é preciso ter calma. Mais profundo do que essa primeira constatação, nas camadas rochosas quase inatingíveis, está o pensamento de um povo e seus costumes, pelos quais o racismo também pode passar. O histórico do Grammy, reforçado a cada edição, aponta para um comportamento tão conservador quanto a cabeça de um eleitor de Donald Trump: 1. Ninguém ali está procurando por novidades. 2. Discursos politizados e de forte contestação não são bem-vindos. 3. Dentre um artista que saiba se repetir, com ou sem verdade nos olhos, e outro que tente surpreender seu público correndo riscos, o primeiro será sempre o escolhido. 4. Narrativas de afirmação racial ou sexual comovem tanto os jurados quanto uma apresentação de Weekend agrada a um verdadeiro fã de Michael Jackson. 5. O Grammy quer apenas produzir ídolos, não heróis.

 

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