Acervo Jorge Mello / Divulgação
Acervo Jorge Mello / Divulgação

Análise: Garoto, o inventor de caminhos e pai ideal da dinastia do violão brasileiro

Em 1969, Vinicius de Moraes (com ajuda de Chico Buarque) colocou letra numa melodia maravilhosa e o Brasil passou a conhecer Gente Humilde. Nascia aí o resgate de uma figura fundamental da música brasileira, o violonista e compositor Garoto, apelido de Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955). Também de Garoto é outra melodia irresistível, Duas Contas (“Teus Olhos / São duas contas pequeninas”, etc.) 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2016 | 05h00

Fama justificada e póstuma, ainda que Garoto, em sua breve vida, tenha exercido atividade musical intensa. Formou com Laurindo de Almeida, outro monstro do violão, o conjunto Cordas Quentes, chamado de “a dupla do ritmo sincopado”. Acompanhou Dorival Caymmi, Ary Barroso e Carmem Miranda em gravações da Odeon. Tocou com Carmem nos Estados Unidos. 

O fundamental é lembrá-lo como um dos pais, senão “o” pai absoluto do moderno violão brasileiro. Não é preciso retórica para defender essa posição. Por sorte, Garoto deixou muitas gravações – inclusive dos seus grandes sucessos, Gente Humilde e Duas Contas para comprová-la. Estas e também Debussyana, Choro Triste, Nosso Choro, Jorge do Fusa, Desvairada dão mostras do músico completo. Garoto tocava de tudo, músicas próprias e de outros autores. Ia do popular ao clássico, atento ao repertório tradicional do violão, com Tárrega e as transcrições de Bach. 

Artista de alto nível, teve sorte de conviver com maestros como Léo Peracchi, Lyrio Panicalli e Radamés Gnatalli. Radamés, aliás, dedicou a Garoto seu Concertino n.º 2 para Violão e Orquestra. O próprio Garoto estreou a peça em 1953, no Teatro Municipal do Rio, com orquestra sinfônica regida por Eleazar de Carvalho. 

O importante é ouvir Garoto nas gravações que deixou, e notar o quanto seu violão pode soar atual aos nossos ouvidos contemporâneos. Em Violão Ibérico, Carlos Galilea sintetiza: “Adivinha-se João Gilberto em sua maneira de abordar o samba. E uns compassos de O Relógio da Vovó evocam Desafinado, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes”. Não é exagero. O bloco de acordes progride em harmonias pouco usuais na fase pré-bossa nova. O toque é limpo como água pura e não parece se render jamais ao exibicionismo técnico. É contido e tudo soa de maneira impecável. Note, por exemplo, a delicadeza de execução de Um Rosto de Mulher. Ou a sutileza profunda de Debussyana. É um mestre. 

Como tal, figura na ponta de uma dinastia ideal do violão brasileiro que sai dele, passa pelo imenso Baden Powell, e segue por Raphael Rabello, Yamandu Costa, Marcos Tardelli, Guinga e outros. Garoto, além de mestre, parece também inventor de novos caminhos. Basta ouvir o Trio Surdina (ele próprio e mais Chiquinho do Acordeon e o violonista Fafá Lemos) tocando O Relógio da Vovó para duvidar que a famosa batida da bossa nova tenha sido mesmo inventada por João Gilberto na aurora da bossa nova. Antes dele, o paulista Garoto já fazia coisa pelo menos parecida. E pensar que morreu com 40 anos incompletos.

 

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