RAFAEL MELO/FOTOARENA
RAFAEL MELO/FOTOARENA

Análise: Gabriel Diniz estava pronto para muitos hits

Julgá-lo como fenômeno de um consumo de redes sociais sem critério é fechar os olhos para um poder pessoal de comunicação avassalador

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2019 | 18h14

Há uma certa confusão com duas frentes que brotam da internet, misturando memes instantâneos de ocasião a figuras de alcance real seguidas por milhões de pessoas. Um bom exemplo do primeiro caso apareceu em 2010, quando um rapaz chamado Reginho fez um vídeo em uma praia do Nordeste com o nome de Minha Mulher Não Deixa Não. Era o típico ‘hit meme’, aquele que viraliza e precisa ser usado às pressas, antes que seu prazo de validade, em geral, de duas a três semanas, expire. Reginho criou uma banda e chegou a fazer três shows por noite para espremer até a última gota daquele sucesso que os céus lhe colocaram no colo.

Gabriel Diniz não é isso. Ele tinha estofo e um potencial a ser explorado, assim como mostrou ter estofo e potencial Michel Teló, outro exemplo de artista popular pós moderno que, como Diniz, fez o caminho dos novos ídolos: surgiu em um segmento fechado, caiu na esteira da viralização, sobreviveu à ultra-exposição, migrou para a velha mídia sem precisar dela, engrossou seu repertório e começou a solidificar uma carreira com muitos shows por um Brasil que não o julgava por suas origens.

Antes de Jenifer acontecer, Gabriel Diniz, que gostava de ser chamado de GD, já havia acontecido em outros álbuns. Dono de um carisma transbordante e de um vocal assumidamente exagerado pela cultura do canto que levou o sertanejo aos asfaltos, Diniz não se tornou gigante com suas mais de 232 milhões de visualizações de Jenifer graças à “ignorância em massa de um povo iletrado”, o argumento mais usado muitas vezes pelos próprios artistas que explicam assim o fato de eles, donos de linguagens refinadas, não alcançarem nem um décimo disso. GD não cantava afinado e não escrevia fragmentos poéticos imortais, mas sabia o que as escolas não ensinam: mais do que cantar o que as pessoas queriam ouvir, ele cantava o que as fazia sorrir. E isso, hoje, se transformou em serviço social.

 

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