Brian Flaherty/The New York Times
Brian Flaherty/The New York Times

Análise: espírito rock and roll perde espaço no Lollapalooza com os anos

É de se perguntar ao mentor do projeto, Perry Farrell, se ele mesmo ouve a maioria das bandas que tomam os palcos desta edição do festival

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

19 Março 2017 | 05h00

Um vírus oportunista se instala silenciosamente nas entranhas do Lollapalooza. Há algumas edições que o projeto idealizado pelo roqueiro Perry Farrell, do vigoroso Jane’s Addiction, já experimentava o sabor de um dilema crescente em sua programação. Afinal, como ser indie e comercialmente viável ao mesmo tempo? Como equilibrar o luxo de uma relevância artística alternativa ao mainstream enchendo os espaços vazios na plateia? O Lollapalooza lutava para se adaptar aos tempos de crise aliando-se a patrocinadores com bala na agulha e mantendo no palco o único item que parecia inegociável: o rock’n’roll.

O espírito da música eletrônica conquista um espaço crescente e, nesta edição, está avassalador entre as bandas anunciadas dos dois dias. Um rápido retrospecto pelas atrações mais visíveis de duas edições mostra como vêm mudando as feições de um festival que já teve uma das almas de maior potencial libertário do planeta. 2012: Foo Fighters, Arctic Monkeys, MGMT, Band of Horses, Jane’s Addiction, Cage the Elefant, O Rappa, Foster the People, Joan Jett & The Blackhearts, Plebe Rude e Velhas Virgens. 2017: Metallica, Rancid, Strokes, Duran Duran e Cage The Elefant. 

A diminuição de três para dois dias de evento já foi uma adaptação aos tempos, mas a concentração maior deveria proporcionar também uma maior relevância na escalação. Como então segurar um dia que vem vindo com os incógnitos Bob Moses, Don Diablo, Tove Lo, The 1975 e G-Eazy? Chamem o Metallica.

Interlagos é cruel com os produtores. Há ali muito espaço e, mesmo quando 60 mil pessoas estão dentro de suas delimitações (algo cada vez mais raro), fica sempre alguma sensação de vazio. Sem nomes mais conhecidos no domingo, que terá o fechamento feito pelos Strokes e o entroncamento de gerações passando por Duran Duran, o comportamento da plateia e sua musculatura devem apontar o caminho. A música eletrônica, não a diluída entre guitarras e baterias, mas a produzida por DJs, poderia ganhar um palco definitivo, preenchendo o vácuo deixado pelo Tomorrowland, um ato de risco quase zero diante da multidão que ela arrasta. E as bandas que apostam no bom e velho formato roqueiro, que tanto habitaram outras edições, seriam, de novo, bem-vindas. No Lollapalooza, o rock precisa de salvação.

Se de fato for reflexo do meio, termômetro da produção contemporânea, o Lolla ratifica uma mudança de foco de dez anos à frente do paradigma generalizado de suas outras edições. Dos anos 70, norteadores de Alabama Shakes, Vintage Trouble, Tame Impala, Black Keys, Jack White, Franz Ferdinand e Arctic Monkeys, os anos 80 estão mais presentes em gente como Flume, The Weeknd, XX, Two Door Cinema Club e, apesar do nome, The 1975. Se for mesmo a roda do rock se movimentado, nem um sistema de cotas setentistas poderia salvar ouvidos mais puros. O desafio aos fãs do Metallica é chegarem mais cedo de peito aberto para, quem sabe, terem algumas boas surpresas.

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