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Análise: Entrar nas plataformas digitais é uma operação necessária e urgente

Será neste ano, segundo termômetros do mercado, em que a prática do streaming se tornará a mais usada no mundo da criação sonora

Júlio Maria, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2019 | 03h30

Até o fim de 2019, uma marca deve ser atingida para o deleite da história. Será neste ano, segundo termômetros do mercado, em que a prática do streaming se tornará a mais usada no mundo para quem quiser ouvir música. Streaming, e não mais download em iPod (a peça que mais rápido passou do status de euforia tecnológica a saudosismo vintage), CDs, vinis, fitas cassete, discos 78 rotações ou qualquer outra modalidade eletroacústica que ative dispositivos afetivos. O mundo nunca ouviu tanta música – gostemos ou não dos fones entalados no sistema auditivo – graças aos Spotify, Deezer, Apple Music, YouTube, Tidal e todos os portais que nos mergulham no mar de quase tudo o que a humanidade produziu de música nos últimos 60 anos.

Estar ou não nessas plataformas logo significará existir ou não existir. Há artistas ainda em negociações tardias e herdeiros ouvindo propostas de executivos de plataformas para passar a fazer parte dos castings. A ficha está caindo na mesma velocidade com que esta expressão tem se mumificado.

Aos poucos, aqueles que têm guardiões ativos, como filhos, ex-mulheres ou representantes de confiança, passam a “existir de novo”. Carmelo Maia, filho de Tim Maia, ficou anos para dar uma boa notícia que só chegou há poucos meses, e ainda incompleta. Os discos Racional 1, 2 e 3 da fase mais estupenda de Tim que, quando movido por crenças extrassensoriais parou de beber e fumar para cantar como nunca mesmo inebriado pela seita Universo em Desencanto, foram parar no universo encantado das plataformas. Mas, sacrilégio, com três músicas ausentes por uma falta de entendimento legal com as respectivas editoras. Não ter O Caminho do Bem em Racional 2 é como editar Elis & Tom sem Águas de Março. E não tem também Cultura Racional (também do 2) e Lendo o Livro (do 3).

Três discos de João Gilberto estão fora das plataformas digitais 

O dia que todos temiam chegou e a luta para que sua segunda morte não aconteça deveria ser questão de Unesco. Em divórcio litigioso de sua gravadora EMI (hoje, Universal), João tem os três primordiais discos longe de todas as plataformas e de todos os sebos. Chega de Saudade (1959), O Amor, O Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961) não estão em casas do ramo, como o Spotify. Com os direitos nas mãos do Banco Opportunity, negociados com representantes de João vivo, não há previsão para a liberação da tríade.

Quando os Beatles entram no negócio, o mundo fica atento. Pois foi assim, em 2010, sete anos depois da criação da loja virtual da Apple, a lojinha dos Beatles, a banda fechou um acordo com o iTunes, de valores nunca revelados. Sinais de que as previsões da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, em inglês) estavam certas. O streaming saltou pelo quarto ano seguido e responde hoje por 47% de toda a receita mundial de música. A realidade está pronta para durar muito mais tempo do que o império romano do vinil. E quanto mais tempo levar para fazer parte dela, mais arriscada será a renovação de uma nova e urgente base de fãs. Os que cresceram ouvindo LPs e CDs, um dia, morrerão.

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