Análise: Em novo disco, Paul McCartney mostra que sua sede pela criação segue inabalável

Análise: Em novo disco, Paul McCartney mostra que sua sede pela criação segue inabalável

Inquieto, ex-beatle quer continuar a fazer sua música e a divulgá-la ele mesmo. E o ótimo Egypt Station é a prova contundente disso.

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2018 | 06h01

A cada faixa, uma nova estação. São 16 músicas/estações no total, com sons, cores e cenários diferentes. Esse é o conceito por trás do novo disco de Paul McCartney, Egypt Station, o que lhe dá plena liberdade para flertar com os mais diversos ritmos – e de se dividir em diversos instrumentos musicais, do baixo, claro, até o piano. E, em tempos de músicas ‘consumidas’ por unidade nas plataformas digitais, sem que seja necessário comprar o disco inteiro, não deixa de ser uma boa sacada pensar um álbum dessa forma – e, obviamente, não sabemos se isso foi intencional ou não. 

E onde estaria então a tão almejada unidade quando se pensa em um disco? Está em Paul McCartney, e na sua forma de compor, na sua sonoridade e mesmo na sua interpretação tão únicas. Por mais que Egypt Station tenha a produção do norte-americano Greg Kurstin, que já trabalhou com nomes como Adele, Lily Allen, Kelly Clarkson e Pink, a essência do disco é o ex-beatle: nas baladas, nos rocks, na inspiração nos ritmos latinos, e na hora de falar sobre amor, felicidade, dor. 

O disco começa com uma rápida introdução, Opening Station, em que os sons urbanos se confundem com um coro, e chegamos logo à segunda faixa, I Don’t Know, com certo tom melancólico evidenciado pelo piano dramático (que, invariavelmente, remete à memória de outra bela – e antiga – canção dele, This Never Happened Before). 

Na sequência, Come On To Me, um dos singles do novo disco, leva a audição para outra frequência, um chamamento alegre, seguida pela acústica-zen Happy With You, Who Cares e Fuh You (esta, com uma interessante roupagem pop). Após a acústica-minimalista Confidante, People Want Peace fala de um desejo coletivo – e oportuno nesses tempos estranhos de hoje. E pensar que Paul volta ao tema quase 50 anos depois que John Lennon, seu companheiro de jornada nos Beatles, pediu uma chance para a paz em Give Peace a Chance (1969), que virou símbolo de protesto contra a Guerra do Vietnã. 

Ainda no disco, em algumas estações depois de People Want Peace, Paul desembarca no Brasil, em Back in Brazil, inspirado por suas felizes passagens pelo País com suas turnês. Devemos nos sentir honrados com a homenagem, mas a canção talvez seja a menos arrebatadora do álbum. A faixa começa com passarinhos a cantar (!), depois uma introdução ao piano com aura de Sérgio Mendes, e então, e um mix de ritmos, que estabelece um diálogo com a latinidade, sem soar, no entanto, como uma caricatura. “São mais os ritmos gerais do país que eu amo”, chegou a definir Paul. E fica difícil não pensar: teria ele pensado em Back in Brazil como uma canção-irmã do clássico Back in the U.S.S.R. (1968)? 

Mais adiante, Station II conduz ao destino final, o rock pesado Hunt You Down (Naked). Paul visivelmente se diverte no novo trabalho, o primeiro de inéditas desde 2013 e depois de rodar o mundo com seus shows. Explora gêneros, sons, texturas, toca boa parte dos instrumentos, apesar de contar com sua banda no estúdio, como disse o produtor Kurstin em entrevista à Rolling Stone. Aos 76 anos, o ex-beatle não se contenta com a grande e valorosa obra que construiu ao longo de décadas. Inquieto, quer continuar a fazer sua música e a divulgá-la ele mesmo. E o ótimo Egypt Station é a prova contundente disso.

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