REUTERS|Photo courtesy KLRU-TV|Austin City Limits|Scott Newton|Handout
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Análise: Em 'A Moon Shaped Pool', do Radiohead, um paciente perfeccionismo

No álbum, as notícias tristes chegam ante deslumbrantes panos de fundo: pianos suaves e guitarras acústicas reforçados por uma orquestra de cordas

Jon Pareles, The New York Times

13 de maio de 2016 | 17h00

NOVA YORK - O futuro é horrendo, o passado uma mancha e o presente é doloroso, mas sugere que existem possibilidades em A Moon Shaped Pool do Radiohead, seu nono álbum de estúdio e talvez seu manifesto mais sombrio - embora o único mostrando o lado mais bucólico da banda.

O álbum é dominado pelas preocupações do Radiohead: com a devastação ambiental, a inconsciência das massas, o amor que acabou, encontrar um caminho à frente. “Você realmente arruinou tudo”, canta Thom Yorke em Ful Stop uma das poucas canções do álbum com ritmo acelerado, embora o grupo use sua persistente batida nervosa, movimento não prazerosos.

Neste álbum as notícias tristes chegam ante deslumbrantes panos de fundo: pianos suaves e guitarras acústicas reforçados por uma orquestra de cordas. Tinidos e murmúrios em vários planos dão à música uma aura subliminarmente reluzente.

Mas este é o Radiohead, cuja beleza é sempre mesclada com pavor; na maior parte, A Moon Shaped Pool é um álbum de canções de ninar de pesadelo. Em Daydreaming, uma melancólica valsa para piano, Yorke canta: “Além do ponto sem volta/e é tarde demais, o dano já foi feito”. A música de abertura do álbum, Burn the Witch é uma espiral de tensão, retratando enigmaticamente uma sociedade que ignora sua própria caça às bruxas, enquanto um arranjo de cordas persistente, pesado, intensifica a dissonância e a agitação.

Em todo o álbum a situação do mundo e aquilo que o cantor está sentindo se misturam. “Quando vejo você me tratando mal, não quero saber”, canta Yorke em Identikit. Se ele está pensando em uma traição pessoal, política ou corporativa, ou apenas como os traços faciais podem ser reunidos como retratos falados da polícia, isto não está claro, mesmo depois que surgem acordos no estilo dos Beatles: “Corações partidos provocam chuva”.

Em Present Tense, uma espécie de bossa-nova agridoce comparável a músicas passadas do Radiohead como Knives Out e House of Cards, Yorke canta: “Enquanto meu mundo desaba/ Estou dançando, desesperado”, e pensa: “Todo este amor terá sido em vão?”.

Yorke, 47 anos, e sua parceira de 23 anos, Rachel Owen, se separaram no ano passado, tendo divulgado um comunicado de que a “separação foi inteiramente amigável”; no final de Daydreaming, a voz de Yorke é tocada ao inverso, repetindo Half my Life.

Mas não devemos reduzir tudo à autobiografia. O Radiohead e Yorke já vêm apresentando parte do material constante do álbum, como Identikit, Present Tense e True Love Waits no palco há anos enquanto meticulosamente aperfeiçoavam as músicas em estúdio. Burn the Witch foi apresentada pelo grupo há mais de uma década.

Cada sibilo e rangido no álbum provavelmente foi avaliado e considerado. A Moon Shaped Pool levou cinco anos para ser produzido, mais do que o hiato de quatro anos entre Hail to the Thief (2003), In Rainbows (2007) e The King of Limbs (2011). É como o Radiohead trabalha agora, de modo mais irregular, entre projetos paralelos de Yorke (Atoms for Peace, aparições em protestos e em concertos beneficentes) e as trilhas do guitarrista Jonny Greenwood (entre elas There Will Be Blood, The Master e Inherent Vice) e colaborações (como Junun, com o compositor Shye Ben Tzur).

As músicas prosperam nessa coalizão onde se fundem letras que expressam inquietação, sofrimento, com a maestria textural de Greenwood (incluindo, supostamente, os arranjos de cordas) e as contribuições mais modestas do restante da banda. Tanto Yorke como Greenwood são ouvintes incansavelmente inquisidores, amantes da melodia e exploradores de idiomas, criadores de quebra-cabeças que não recuam face às emoções.

Algo com que o Radiohead não se preocupa mais é com a tecnologia digital. Na década de 90, quando o grupo produziu OK Computer, suas músicas alertavam desesperadamente para a invasão da tecnologia na individualidade. Mas hoje, na música da banda a tecnologia é apenas uma ferramenta onipresente e muito comum e não ocupa o centro da atenção. Em A Moon Shaped Pool o estúdio foi muito usado, mas a atividade humana dentro dele se revela. Independente de como foi produzido, o som do álbum é quase todo acústico e analógico; um pouco difuso, um pouco barulhento, evitando o metrônomo. Daydreaming começa com este que é um dos efeitos mais analógicos, como uma gravação que vai perdendo velocidade. A tecnologia só ajuda a capturar e repetir a sonoridade das guitarras acústicas, dos teclados, da percussão e das vozes, alimentadas ou não por meio de instrumentos de distorção analógicos. É tão amoral quanto um microfone ou um amplificador. E a música soa acústica mesmo que obviamente tenha sido programada.

Os resultados com frequência remontam ao final dos anos 60; de certa maneira A Moon Shaped Pool é o álbum folk progressivo da banda. A letra de The Numbers, que os fãs do grupo já conhecem como Silent Spring, diz que “somos da terra/ para ela retornamos” e é quase um apelo às armas feito pelo grupo: “Pegaremos de volta o que é nosso”, ela insiste. A produção aparece em Expecting to fly, do Buffalo Springfield, com aumento gradual do volume da guitarra e um vendaval de cordas. Desert Island Disk lembra os experimentos com toques jazzísticos de Pentangle e os fantasmas eletrônicos de Tim Buckley, quando Yorke imagina “o vento soprando em volta do meu coração aberto, uma ravina aberta”. Mas é a música rara no álbum que oferece um raio de esperança - o sentimento de estar “totalmente vivo, totalmente livre”. Glass Eyes começa como a mais sombria das baladas, com acordes de piano vagando em meio à névoa quando o cantor chega a uma cidade desconhecida e aterradora e descobre, talvez, uma saída. “Um caminho vai se dissipando e se dirige montanha abaixo. Não sei aonde ele leva/E na verdade não importa”.

O álbum termina com True Love Waits, canção de amor que o Radiohead compôs nos anos 1990 e gravou pela primeira vez num EP ao vivo em 2001 chamado I Might Be Wrong, com Yorke tocando e cantando sozinho, num crescendo até o refrão da música: “Don’t Leave, Don’t Leave”. Duas décadas mais tarde, sua versão em estúdio testemunha a que paciente perfeccionismo a banda chegou.

Em vez de acordes de guitarra, a música começa com quatro notas de piano que se repetem, um acorde seccionado e despojado. E ainda no piano são tocados outros acordes durante o primeiro verso. Aos poucos mais pianos são agregados: loops com sons alternados, tonalidades baixas sonoras, acordes que se repetem, e nem tudo faz parte de um arranjo, mas muita coisa emana junto com ele. Um mundo que existe fora dos anseios de um homem e não quer ser ofuscado por eles.

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