FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Análise: Elza, a mulher que canta hoje, não é mais de samba nem de canção

Seu caso particular de referência contestatória está tão impregnado na própria pele e na voz que precisa apenas de sua presença para existir

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2018 | 06h00

Elza Soares não precisa erguer faixas de protesto ou sair em passeata. Seu caso particular de referência contestatória está tão impregnado na própria pele e na voz que precisa apenas de sua presença para existir. Poucas pessoas na história chegaram a esse status. A imagem de Luiz Gonzaga trazia consigo um povo inteiro. João Gilberto transformou-se, ele mesmo, em um banquinho e um violão. Raul Seixas, o personagem, ficou mais forte do que o homem quando fundou uma crença monoteísta sem templo nem Bíblia. Rita Lee inverteu a ordem mundial e fez do Brasil o único país do mundo em que o rock and roll mais popular é mulher. Os outros gênios continuam sendo gênios, mas seus feitos estarão sempre circunscritos à análise de suas obras.

Elza transcende a música que canta desde 1960, com a estreia do álbum Se Acaso Você Chegasse. Um fenômeno para o bem, quando a torna a força irrefreável que cala o opressor antes mesmo que sua boca se abra, e para o mal, quando a persona social e política atropela à revelia o próprio histórico artístico. Seria lindo se cada jovem que passou a escutá-la depois do transformador álbum A Mulher do Fim do Mundo, de 2015, conhecesse os estilhaços rítmicos que ela provoca quando canta ao lado do baterista Wilson das Neves no disco que gravaram juntos em 1968 ou, já toda arranjada em metais e percussão, a ouvisse samba roqueando na faixa Saltei de Banda, do disco Elza Pede Passagem, de 1972. É bom lembrar de que quando ninguém a havia eleito rainha, processo finalizado nos últimos dez anos, Elza só tinha a música para se defender. Era ela sua única proteção, e não a história de uma resistência que ganharia força apenas 40 anos depois, quando a panela do diabo estivesse prestes a explodir.

Ex-faxineira e empregada doméstica, Elza Soares sofreu nos longos tentáculos do racismo. Foi atacada por ser negra, por ser mulher, por ser pobre e por ter se casado com Mané Garrincha, sua paixão. Sem pai por perto, perdeu de forma trágica a mãe, o marido e um filho, caiu em depressão, levantou-se e encontrou Louis Armstrong com todo aquele sorriso. O tempo talhou a voz e a alma e a canção deixou de ser doce como era antes. Tanto em A Mulher do Fim do Mundo quanto em Deus é Mulher, seus dois últimos trabalhos, quem canta é a Elza dos novos estandartes. A sambista só deve voltar no dia em que o açougue que vende a carne negra como a mais barata do mercado fechar suas portas.

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