MARCOS ARCOVERDE|ESTADÃO
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Análise: Ed Motta se dá ao direito de ser ele mesmo em novo disco

Músico lança 'Perpetual Gateways' no Brasil

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2016 | 05h00

Não é mais segredo para ninguém a relação, digamos, de apropriação que Ed Motta tem com o idioma inglês. E isso vem muito antes da polêmica do ano passado, quando ele usou o Facebook para avisar a comunidade brasileira que ele só canta e fala em inglês em seus shows no exterior. “Preciso me comunicar de forma que todos compreendam, o inglês é a língua universal”, escreveu. Ed já fala isso há tempos. Desde que começou a incluir canções em inglês em seus álbuns. Desde que lançou seu primeiro disco só em inglês, o bom Chapter 9 (2008). À época, ele já comentava que o idioma se encaixava melhor em suas ideias. O argumento era plausível. Tem a ver com o universo jazzístico e soul americano no qual ele tanto bebe na fonte. E, por que não?, com o público que o músico quer atingir fora do Brasil, mercado que ele também vem investindo há tempos. 

Assim, Ed Motta não parece pedante cantando em inglês, como faz novamente em todo seu novo disco, Perpetual Gateways, gravado em menos de uma semana nos Estados Unidos, com um time de primeira da costa oeste americana. Soa natural dentro de seu projeto profissional, como o é para outros artistas brasileiros que compõem, por razões diversas, em inglês, caso, por exemplo, do paulistano Thiago Pethit. Mas, em relação a seu Chapter 9, Ed Motta adianta o passo nas letras no novo álbum. Se, naquele trabalho, elas foram assinadas por Claudio Botelho e pelo britânico Rob Gallagher, agora, as canções foram compostas pelo próprio Ed. Um avanço corajoso e coerente no seu cancioneiro. 

 

O mesmo não pode se dizer em relação à sonoridade do disco. Mas, veja bem, isso não é um aspecto negativo. Os álbuns do músico têm notória qualidade musical. E ele mantém seu conhecido DNA no novo trabalho, transitando com sofisticação pelo jazz, soul e groove. Talvez isso possa ser atribuído à forma fluida como as coisas aconteceram no estúdio, com todos juntos e poucos dias para gravar. Perpetual Gateways é aberto com a suingada Captain’s Refusal – que lá pelas tantas faz uma ligeira citação à clássica Garota de Ipanema. Preste atenção. 

A levada deliciosa dessa primeira faixa conduz para Hypochondriac’s Fun e, depois, Good Intentions, as duas com o piano vigoroso dividindo o protagonismo (também em solos) com o vocal de Ed Motta. Por falar no vocal do cantor, Ed aqui é mais comedido nos vocalizes, que acabaram se tornando sua marca. Vale lembrar que a técnica foi uma alternativa encontrada por ele, em algumas faixas, para contrapor com o repertório puramente instrumental no álbum Dwitza, de 2002. 

Nessa toada de Perpetual Gateways, depois de Reader’s Choice e Heritage Deja Vu, a balada Forgotten Nickname traz ares de tranquilidade, num intenso diálogo entre pianos, bateria, baixo acústico e flauta. Em A Town in Flames e I Remember Julie, Ed e companhia voltam a incendiar com jazz de primeira linha, fazendo jus com o que aprendeu com seus mestres do gênero. Fecha o disco com Overblown Overweight, com direito a solo arrepiante de Charles Owens, com seu saxofone tenor em punho, e os tradicionais vocalizes de Ed Motta. Perpetual Gateways marca um momento de avanço de Ed Motta – em que ele se dá ao direito de ser ele mesmo. 

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