Finbarr O'Reilly/ Reutes
Finbarr O'Reilly/ Reutes

Análise: Do começo ao fim, Penderecki transfigurou a Osesp

Solos impecáveis das cordas, madeiras e metais (destaque para a trompa de Luiz Garcia) na sinfonia

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

21 de setembro de 2017 | 11h44

No caldeirão das músicas contemporâneas atuais, há dois tipos de compositores: os que jogam para a plateia, sacrificando qualquer cuidado com qualidade de invenção desde que lhes sirva para serem conhecidos pelo grande público (Philip Glass); e os que seguem a vanguarda experimental de forma militante, convictos de que criam a música do futuro, não a do presente transformada em mercadoria (Elliott Carter). Há porém um tipo mais raro, quase sempre bloqueado pelas patrulhas de lado a lado. E o dos que criam segundo suas convicções, colhendo elementos ora vanguardistas, ora conservadores, desde que lhes sirvam para melhor expressarem sua criatividade. O polonês Krzysztof Penderecki, 83 anos, é um destes últimos. O concerto que regeu no dia 13 na Sala São Paulo é modelar desta postura. 

Combinou duas de suas obras com um dos maiores concertos para violino do século 20, infelizmente pouco tocado: o primeiro de outro polonês de gênio, Karol Szymanowski (1882-1937).

Já se impôs na primeira peça, o Hino a São Daniel, com a participação dos dois coros da Osesp. Aqui, operou uma prestidigitação: a orquestração prevê clarinetes e fagotes, metais, percussão e só os contrabaixos. No papel, esquisita. Na prática, soou como um opulento órgão a acompanhar versos como Fiel príncipe Daniel, roga a Cristo Deus/ para que ilumine a cidade que é a tua morada.

A Sinfonia no. 4, estreada em 1989 e composta para os festejos oficiais dos 200 anos da Revolução Francesa, é um monumental e melancólico Adagio. Mieczyslav Tmaszewski em artigo sobre a obra, diz que “ele não escreveu uma cantata celebrando as virtudes de Robespierre nem uma ode em honra à guilhotina”, mas, completo eu, uma reflexão que lamenta soarem ocos, hoje em dia, os três slogans daquela Revolução (liberté, égalité, fraternité) que, pensávamos, deu-nos cartas de uma cidadania cada vez mais distante da realidade. Musicalmente, celebra com sinceridade o esplendor da escrita sinfônica tonal a meio-caminho entre Bruckner e Mahler.

Do começo ao fim, Penderecki transfigurou a Osesp. Solos impecáveis das cordas, madeiras e metais (destaque para a trompa de Luiz Garcia) na sinfonia, além das mil e uma filigranas de naipes do concerto, tocado de maneira arrebatadora por Isabelle Faust e pela orquestra. Afinal, como disse o compositor, “é uma obra sinfônica com violino solo”. A frase de Szymanowski caberia bem no ideário estético de Penderecki: “Novas e diferentes nuances, mas também um certo retorno ao antigo. No conjunto, um caráter fantástico e surpreendente que jamais se ouviu antes”.

P.S.: com justiça, o CD dos concertos de Mozart de Isabelle Faust com o Giardino Armonico regido por Giovanni Antonini foi anunciado esta semana como disco do ano da revista inglesa Gramophone.

Cotação: excepcional

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.