Análise: Dick Farney e sua voz suave, piano perfeito e elegância a toda prova

Dick ia devagarzinho, no registro baixo, de afinação total. Fazia isso com a música americana e com a brasileira.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2016 | 06h00

Farnésio Dutra ninguém sabia quem era. Mas Dick Farney era uma figura muito conhecida no Rio de Janeiro pré-bossa nova. Dick era de boa família, educado, pianista clássico e, acima de tudo, fanático pela boa música norte-americana. A natureza deu-lhe voz de veludo (voz “de travesseiro”, se dizia na época), que ele aperfeiçoou com estudo. Tocava muito bem, tinha gosto musical impecável e era bem informado. Abriu uma vertente particular no país tropical, a do cantor sofisticado, suave, sem arroubos, sem vibratos desnecessários. Exato oposto do que passava por técnica em sua época. O Brasil tinha preferência por intérpretes exuberantes, que sustentavam as notas por tempo indefinido, os dós de peito que eram sinônimos de emoção.

Dick ia devagarzinho, no registro baixo, de afinação total. Fazia isso com a música americana e com a brasileira. Chegou a morar nos Estados Unidos, tocou com Nat King Cole e Bill Evans. Fez sucesso com a gravação de Tenderly. Quando ninguém esperava, voltou ao Brasil a tempo de surfar a onda da bossa nova, já em formação na linha do horizonte. Antes disso, já registrara gravações antológicas de música brasileira, como a de Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro. Interpretou Caymmi (Marina) e ficou famoso, para todo o sempre, pelo dueto com a alma gêmea, Lúcio Alves, em Tereza da Praia, de Tom Jobim e Billy Blanco.

A voz, a apresentação, o piano de Farney eram sinônimos da elegância de certa cena carioca. Não era ainda a voz da bossa nova. Esta viria com a síncope original de um baiano de Juazeiro, João Gilberto. Mas a verdade é que a bossa nova caiu tão bem em Dick Farney quanto um dos seus ternos bem cortados.

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