Tiago Calazans
Tiago Calazans

Análise: Cordel do Fogo Encantado apresentava espetáculos teatrais únicos e incendiários

Banda de Pernambuco anunciou o retorno, com novo disco e turnê

Lauro Lisboa Garcia, Especial para o Estado

23 de fevereiro de 2018 | 06h01

Corriam os últimos anos da década de 1990, quando os olhos e ouvidos nacionais (e até internacionais) voltavam-se como que movidos por alguma força magnética para a música jovem pernambucana, graças à estrondosa repercussão do movimento manguebeat, com Chico Science & Nação Zumbi à frente.

Era a hora de ir aos diversos mananciais culturais que ainda careciam de exposição, fora do Recife. Eis então que dois dos melhores grupos do interior surgiam para pavimentar outros caminhos em linhas paralelas: A Fuloresta, liderada por Siba (ex-Mestre Ambrósio) em Nazaré da Mata, e de Arcoverde o Cordel do Fogo Encantado, tendo à frente o poeta, cantor e declamador Lirinha (José Paes de Lira).

Como Siba, Lira é dos mais expressivos letristas/poetas de sua geração, com poderosa carga dramática, uma vez que a poesia e o teatro são os elementos mais notáveis de suas performances, cadenciadas pelo peso de instrumentos de percussão de matriz africana e tradições nordestinas como samba de coco, reisado, maracatu e suas ligações com o candomblé e a literatura de cordel.

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Da significativa ligação com o paladino da percussão afro-brasileira Naná Vasconcelos (1944-2016) saiu o álbum de estreia em 2000, e daí um giro pelos palcos do Sudeste, onde logo surgiram seguidores com algum interesse folclorista. Porém, a experiência do Cordel, tendo como maior atrativo a figura de Lira com seu ritual inflamado, era mais contundente ao vivo do que nas gravações dos três evolutivos álbuns lançados entre 2000 e 2006.

Os espetáculos tinham caráter único, como uma peça teatral, e aquele formato, tanto instrumental como lírico acabou reverberando nas primeiras incursões solos de Lira. Como uma espécie em miniatura de “beatlemania”, porém, a atuação do Cordel ao vivo passou a sofrer excessiva interferência do público, que não raro encobria a voz de Lira repetindo aos brados os poemas durante as performances. Daí perdeu a graça, não havia mais surpresa, e para quem não era do fã-clube (algo parecido com o que ocorreu com Los Hermanos) ficou complicado lidar com o ruído ao redor.

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Sonoramente o grupo também se transformou e o grande mérito por isso é do violonista e guitarrista Clayton Barros. Em 2011, Clayton criou o grupo Os Sertões mantendo a diversidade rítmica das mesmas fontes do Cordel, mas com outras abordagens. Partiu do ponto de onde seu ex-grupo parou, deixando para trás um disco em pré-produção que não se concretizou. É daí que eles podem evoluir agora e criam expectativa de como ainda é possível se criar algo original a partir dos mesmos componentes orgânicos disponíveis há décadas.

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