Denise Andrade / Estadão
Denise Andrade / Estadão

Análise: contratenor Philippe Jaroussky faz apresentação notável na Sala São Paulo

A obra de Haendel, perfeita para Jaroussky

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

26 Abril 2017 | 04h00

“Quando é preciso, ele fere como um raio”, disse dele Mozart. E Beethoven aconselhava: “Procure em Haendel e aprenda com ele a produzir tão grandes efeitos com tão poucos meios”. A empolgante “viagem” pelas árias e recitativos de óperas entremeados por peças instrumentais provou esse poder do compositor, graças aos excelentes músicos da orquestra Le Concert de la Loge e ao fabuloso supercontratenor francês Philippe Jaroussky na última segunda-feira, dia 24, na Sala São Paulo, dentro da temporada 2017 da Sociedade de Cultura Artística. Händel nasceu alemão, virou italiano ao passar quatro anos pela península e depois Haendel para dominar a vida musical inglesa de modo avassalador, primeiro no reino da ópera, depois no do oratório, a ponto de ser entronizado postumamente como um dos grandes compositores... ingleses. 

Dizer que Haendel foi a razão do sucesso responde em parte à magia musical desse concerto. De fato, e Romain Rolland ressaltou isso numa biografia de 1910, sua música parece “ser um improviso perpétuo”. Sua música queria – e conseguia – atingir o público imediatamente. 

O segundo vértice desse triângulo virtuoso se deve à orquestra de instrumentos autênticos Le Concert de La Loge. Seus 17 músicos constroem frases precisamente desenhadas, dinâmicas que hipnotizam, allegros e prestos com extrema justeza de afinação – tudo isso qualifica como memorável a execução da abertura à francesa de Radamisto e sobretudo do Concerto Grosso op. 6, n.º 1. Nos trechos da Música Aquática, incomodou a velocidade excessiva, que fez a bourrée e o Allegro virarem corrida de fórmula 1. Nada importante. Afinal, bastava partilhar o swing das três violinistas de frente, transformando seus instrumentos em extensões naturais de seus corpos, para se deixar seduzir por essa música contagiante. 

Jaroussky, no pleno domínio de suas qualidades superlativas – seja de emissão, seja de expressividade interpretativa –, fechou com chave de ouro a noite com suas oito performances. Comoveu pelo amor que aflora em “Bel contento” e causou espanto pela incrível agilidade vocal na ária de bravura Rompo i Lacci, ambas de Flávio, Rei dos Lombardos. Juntos, orquestra e cantor uniram-se num pianíssimo dificílimo de se produzir com tamanha sutileza em Deggio Morire, o Stelle, de Siroe, Rei da Pérsia.

Mas foi Radamisto que, além da abertura, proporcionou os momentos mais emocionantes da noite: Jaroussky se autoexaltou como herói e guerreiro no recitativo Vieni d’Empietà e na ária Vile, se Mi Dai Vita (esta com trechos coloratura de fazer levantar o público); e resignou-se contrito na ária Ombra Cara, em que o herói já lamenta a perda próxima de sua paixão. Entre os extras, atendendo aos pedidos do público, Jaroussky encantou com Ombra Mai Fu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.