Chris Park/Invision for EA Sports/AP Images
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Análise: conservadorismo contamina indústria da música

O embate entre Adele e Beyoncé camufla uma realidade intrigante: ao contrário de outras edições, o Grammy 2017 informa que nenhuma novidade foi produzida na temporada

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2017 | 04h00

Há algo de inebriante no Grammy de 2017. A briga de dois pesos pesados, faces da mesma soul music dos anos 60 e 70, é estimulante na superfície e preocupante nas camadas mais profundas de uma premiação que tem como estratégia de mercado renovar este mesmo mercado para garantir sua sobrevivência. O roteiro sempre apostou no efeito bombardeio. O artista do ano deve ganhar muitos prêmios, entre seis e sete estatuetas, para que se consagre na noite e tenha pavimentado mais um ano de contratos e vendagens em escala planetária. Foi assim, em maior ou menor grau, com Pharrel Williams, com Bruno Mars, com Sam Smith, com Kendrick Lamar, com as próprias Beyoncé e Adele e com gente que não acaba mais. Ao contrário da versão latina da premiação, o Grammy que fica do outro lado do muro de Trump tem peso. Todas as biografias de estrelas norte-americanas citam a quantidade de estatuetas vencidas por eles.

A festa deste ano é estimulante pela briga de gigantes, mas preocupante por não ter uma aposta de nova temporada. A premiação nos diz que o ano de 2016 não conseguiu produzir um mísero nome promissor na maior indústria fonográfica do mundo. Na categoria melhor música, a novidade seria Lukas Grahan, o dinamarquês cheio de histórias traumáticas na infância que mudou de vida desde que lançou 7 Years. É pouco, não deve furar o bloqueio de Formation, do disco Lemonade, de Beyoncé, nem Hello, mais do mesmo nostálgico de Adele. Rihanna chega com Work, com participação de Drake, e a dupla Twenty One Pilots vem com Stress Out. É pouco.

Na segunda categoria mais importante, álbum do ano, só a zebra Sturgill Simpson, cantor country que entra pelo sistema de cotas praticamente imposto pelos norte-americanos, seria novidade para o mundo com A Sailor Guide to Earth. No mais, outra vez se flagra a inexistência de renovação. Adele, com 25, Beyoncé, com Lemonade, Drake, com Views, e Justin Bieber, com Purpose. O conservadorismo que parece contaminar a indústria da música só seria quebrado se Beyoncé, mesmo sendo um nome com 20 Grammys nas costas, levasse muitos prêmios pelo combativo Lemonade. O resto é pouco, muito pouco.

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