Leo Aversa
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Análise: Chico Buarque devolveu meu sorriso

Machista? Em tempos de ódio, tudo vem se mostrando assustadoramente possível

Rita Lisauskas, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2017 | 11h17

De repente todos falam ao mesmo tempo do Chico Buarque. Na timeline do Facebook, acusam-no de machista, assim, na lata. O mundo está de cabeça para baixo!, pensei. Até ele? O (ex-)marido da Marieta? O pai de três mulheres? O meu ídolo da infância? Será que ele fez uma música pedindo para que a Cecília/Beatriz/Carolina/Terezinha ou a Rita da vez tirasse o batom vermelho ou trocasse a roupa, curta demais?

Em tempos de ódio, tudo vem se mostrando assustadoramente possível. O Chico teria transformado sua nova musa em Geni? Estaria ele jogando pedra na Geni, bosta na Geni, será que depois de décadas entendendo tão bem a alma feminina teria deixado a delicadeza de lado para cantar, à vera, que mulher é feita para apanhar, ou que é boa de cuspir, você dá para qualquer um, maldita Geni!

Só havia um jeito de saber. Joguei as palavras "Tua Cantiga" no YouTube. Não me bastava ouvir a nova música do Chico Buarque. Eu precisava vê-lo cantar. Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, Chico. Mesmo que virtualmente.

Quando te der saudade de mim. Quando tua garganta apertar. Basta dar um suspiro que eu vou ligeiro te consolar.

Ufa. Ela estava lá. A paixão chicobuarquiana todinha presente e logo no primeiro verso. Sua eleita parece ser comprometida, assim como ele. Quem nunca, não é mesmo? A vida, às vezes, é longa demais para amar apenas uma vez. Chico domina a arte de amar daquela vez como se fosse a última. De beijar sua mulher como se fosse a única. Mas elas nunca são.

Quando o teu coração suplicar. Ou quando o teu capricho exigir. Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir. 

Opa. Achei o motivo da grita. Largo mulher e filhos. 'Largar' é forte demais, disse-me uma amiga. Outro Buarque de Holanda, o Aurélio, concorda. E me conta, depois de uma rápida consulta, que largar é pôr em liberdade, deixar fugir. Ir-se. Abandonar. Largar é algo corajoso. Partir quando ficar não faz mais sentido é movimento de quem é grande. Chico é um cabra de coragem, sempre foi. Na vida. Na literatura. E na música.

Dizer que vai largar os filhos pega mal. "Que covarde!", li em um dos 'textões'. Covardia para mim é se manter um relacionamento só porque se tem filhos. Se o amor acabar saia andando, por favor, sempre digo lá em casa, sem poesia alguma, porque não sei rimar, nem cantar. Sem mágoas, eu farei o mesmo se me desapaixonar de você.

Sim, sim, é sempre um movimento arriscado. Trocar a mulher que faz uma feijoada completa, sem reclamar, por alguém que pode amanhã levar embora o seu sorriso, seu retrato, seu trapo, seu prato, que papel! Uma imagem de São Francisco e um bom disco de Noel? Pois é, pois é. Se atirar assim, de trampolim, em busca do tal grande amor, não é para os fracos. Chico é grande.

Sabemos que não há garantias. Mesmo depois de ter certeza que se vivia, enfim, o grande amor, qualquer um dos dois pode mudar de ideia, mesmo depois de largar tudo. E o que resta? Uma pedra no peito. A vontade de mudar de calçada, quando aparece uma flor. E dar risada desse tal grande amor.

Mentira. A paixão pode virar amor - ou dor, sua rima mais pobre. Dor que dói latejada. Mas se você tiver sorte, muita mesmo, o que fica depois desse salto sem paraquedas é uma letra de música. Uma cantiga. A tua cantiga.

Quando o nosso tempo passar. Quando eu não tiver mais aqui. Lembra-te, minha nega, desta cantiga que fiz pra ti. 

Vale.  Com o Chico? ô se vale.

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