LEONARDO CASTRO/AE
LEONARDO CASTRO/AE

Análise: Cauby Peixoto, a última grande voz

O último representante em ação, surgido na Era do Rádio, Cauby deixou um disco pronto em homenagem a Dick Farney

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2016 | 19h01

A morte de Cauby Peixoto encerra os vestígios da Era do Rádio. Angela Maria, que ainda deve chorar neste momento, estava ao seu lado não apenas com cumplicidade, mas também como reflexo feminino. Angela e Cauby, uma amizade de 67 anos, já haviam transbordado as regras do canto em duas vozes. Eles se olhavam e diziam tudo o que queriam, se comunicavam pela alma. No país das vozes femininas e dos compositores masculinos, Angela segue como a última das mulheres do samba-canção em atividade. Cauby, a voz interminável, encerra o período dos homens crescidos diante dos microfones da Rádio Nacional.

Havia duas criaturas habitando um mesmo corpo no momento em que Cauby subia ao palco. Ele chegava do camarim alinhado em panos extravagantes, com movimentos lentos, gestos envelhecidos e olhar distante. Então, sentava-se, sorria e acenava para o começo da canção. A introdução era feita. Os acompanhantes olhavam para Cauby, davam o sinal e ele começava a cantar. Era o instante do susto. Cauby era assustador. Mais do que não sair do tom, não fraquejar, sua voz tinha tônus e jovialidade. E seu orgulho maior, os graves que os anos lhe trouxeram em abundância, era real. Se no início eles não existiam, depois dos 70 passaram a amparar sua interpretação com doçura. Cauby era grave e doce, um desempenho que não lhe caía dos céus.

Cauby Peixoto deixou um disco pronto, que só precisa ser finalizado em estúdio. Seguindo as homenagens que adorava fazer, na linha de Cauby interpreta Roberto, de 2009; Cauby canta Baden, de 2006; Cauby canta Sinatra, de 1995; e, mais recente, Cauby Sings Nat King Cole, de 2015; seu tributo da vez seria a obra do pianista e cantor pré-bossa novista Dick Farney.

Farney foi um de seus primeiros ídolos, conforme Cauby contou ao programa Musicograma, do Canal Brasil, em 2011. “Nós cantores sempre gostamos de imitar nossos ídolos. Quem me pintou primeiro no ouvido foi Orlando Silva. Eu queria ser o Orlando Silva de qualquer maneira, eu cantava sempre mais alto. Depois veio Farney. O Moacir (Franco) chegou para mim e falou: ‘Olha você tem que cantar o repertório do Dick Farney’”.

As roupas alinhadas eram uma marca e uma filosofia. Elis Regina, por quem Cauby alimentou uma paixão indefinível e com quem o cantor pediu para viver junto, se orgulhava de não sustentar a imagem mais fashion do showbiz. Um dia, andando pelas ruas do Rio de camiseta e chinelo Havaianas, cruzou com Cauby e levou uma bronca. “Elis, não é por você que precisa andar bem arrumada. Faça isso pelos fãs.” O cantor leva consigo também a geração de artistas que alimentavam e se alimentavam de fãs mediando a relação com respeito. Foi em nome deles que decidiu trocar seus dentes por próteses que harmonizassem melhor seus traços e a, mesmo não sendo careca, usar peruca todos os dias de sua vida.

Cauby era um operário. Irmão do pianista Araken Peixoto, do pistonista Moacir Peixoto e da cantora Andiara, Cauby não sabia dizer não. Seu problema, diriam os médicos, eram os sins. Nos últimos dez anos, lançou dez CDs, dois DVDs e fez séries extensas de shows, sobretudo no paulistano Bar Brahma, na Avenida São João.

Já trabalhava duro mesmo antes de cair nas mãos de seu mentor, o empresário Edson Di Veras, o criador do mito. As memórias que tinha de Di Veras tiravam sempre um sorriso. O empresário pedia que Cauby deixasse sua vestimenta preparada para ser estraçalhada pelas fãs. No primeiro puxão, saía uma manga; no segundo, a gravata. Elas enlouqueciam, e Cauby crescia.

“No dia em que eu perder a minha voz, eu perco a minha vida”, dizia. Sua morte, então, foi um engano. Cauby Peixoto cantava para as enfermeiras do hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, até dias antes de seu último suspiro, na noite de domingo.

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