CESAR DINIZ / ESTADÃO
CESAR DINIZ / ESTADÃO

Análise: Carreira de David Bowie sempre buscou a liberdade

Músico se rendeu ao sucesso de mentira apenas uma vez, e se arrependeu

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 06h00

Foi o grande espetáculo, o maior de todos que havia apresentado, escrito com frieza de detalhes e ensaiado meticulosamente em cada gesto e em cada palavra. Ziggy Stardust e Jareth estavam mortos e só restava a David Bowie, agora, depois de ser todos os seres que sua mente havia criado para levá-lo ao espaço, viajar para dentro de si mesmo em busca de algum sentido. E, desta vez, a plateia só saberia do final depois do final.

Bowie fechou a saga que iniciou em 1967, com seu primeiro álbum, despedindo-se depois de anunciar a morte sorrateiramente em seu último disco, lançado em 2016. Ninguém, além dele mesmo e de seus médicos, sabiam da gravidade de sua doença. “Olhe aqui pra cima, estou no céu / Tenho cicatrizes que não podem ser vistas / Tenho o drama, não pode ser roubado / Todo mundo me conhece agora”, diz em ">Lazarus, de Blackstar. “Você sabe, eu estarei livre / Igual àquele pássaro azul / Isso não é a minha cara?”.

Sim, livre como aquele pássaro azul. Bowie morreu sabendo exatamente quem era Bowie, uma criatura indomesticável que conseguiu jogar potenciais sequências de sucesso pela janela para refazer-se em álbuns seguintes mesmo dentro de uma estrutura que nunca permitiu manobras tão radicais. Para Bowie, o fato de um disco dar certo era quase a senha de que seu próximo deveria ser o avesso do que era antes.

Por uma vez, Bowie quis fazer sucesso e chamou para isso a maior esteira de hits de pista dos anos 1970 na música pop, Nile Rodgers. O ex-integrante do Chic fez uma pergunta logo que chegou, algo como: “Você quer fazer sucesso ou ter relevância?”. Bowie disse que os dois, e foi com esse desafio que começou a trabalhar com aquele sujeito fora dos padrões da indústria. (Sempre bom lembrar que o seu guitarrista era Stevie Ray Vaughan, uma lenda do blues morto em 1992 em um acidente de helicóptero no qual deveria estar Eric Clapton).  Bowie não seria Bowie em 1984, quando caiu na tentação de seguir o que deu certo em Let’s Dance e fez um fracasso de crítica e autocrítica chamado Tonight. “Não gostei”, ele disse. Nunca mais, a partir de então, David Bowie abriria mão da liberdade do pássaro azul.

Tudo o que sabemos sobre:
David Bowie

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.