Análise: Bossa Nova foi a trilha sonora de um país otimista e seguro de si

Análise: Bossa Nova foi a trilha sonora de um país otimista e seguro de si

Faltava, até então, a trilha sonora à altura e ela ganhou forma naquele 10 de julho de 1958, 60 anos atrás, quando João Gilberto gravou no estúdio da Odeon um compacto com 'Chega de Saudade e 'Bim Bom'

Luiz Zanin Orichio, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2018 | 06h01

Todo vento soprava a favor do Brasil naquele final de anos 1950. Governo progressista, conquistas esportivas no futebol, no boxe, no tênis, indústria automobilística nascente, a nova capital sendo construída no meio do imenso país. O gigante despertara. E, além de forte, parecia elegante, gentil e inteligente.

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Faltava uma trilha sonora à altura e ela ganhou forma naquele 10 de julho de 1958, 60 anos atrás, quando um cantor chamado João Gilberto gravou no estúdio da Odeon um compacto em 78 rotações. As canções eram Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) de um lado e Bim Bom, do próprio João, no outro. Esta é a certidão de nascimento da Bossa Nova, expressão artística que só receberia nome próprio tempos depois. 

Havia anos que jovens músicos no Rio de Janeiro buscavam novos caminhos para a música brasileira. Gostavam de jazz e ouviam discos importados sem cessar. Para citar um exemplo, Roberto Menescal (entre outros) era devoto de um álbum chamado Julie Is Her Name, gravado em 1955 com a deusa Julie London e sua voz de travesseiro acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel e pelo baixista Ray Leatherwood.

Julie interpretando Cry me a River é devastadora, mas os músicos só tinham ouvidos para os acordes dissonantes gerados pela guitarra de Kessel. O mapa da mina estava ali. 

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Faltava o ritmo e a sua invenção remonta ao mito. De acordo com ele, um João Gilberto meio sem rumo teria se hospedado na casa de sua irmã, em Diamantina, e tocava violão o dia todo, sem parar. Tinha predileção por ensaiar no banheiro, o que causava transtorno na ordem da casa.

Mas era lá, entre ladrilhos antigos, que João encontrava a ressonância ideal para seu violão e sua voz. Nesse ambiente pouco nobre nasceu a famosa “batida da Bossa Nova”, inventada por João Gilberto.

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Ao voltar para o Rio, João trouxe a base rítmica e interpretativa que serviria de leme à ainda oficialmente não nascida Bossa Nova. Em depoimento a Zuza Homem de Mello (no livro Eis Aqui os Bossa Nova), Baden Powell diz que é como se, de uma escola de samba inteira, João ficasse apenas com os tamborins.

Só o osso, o diagrama, o essencial. São alterações harmônicas, rítmicas e do canto “pequeno”, associado mais à fala que ao dó de peito, que constroem a estrutura básica da Bossa Nova. 

Estabelecidas suas bases sólidas, a Bossa se desenvolveu com intérpretes e compositores geniais, entre os quais sobressai Tom Jobim. Foi trilha sonora de uma geração (ou mais de uma), ganhou mundo e hoje é mais tocada lá fora que aqui. Em seu denso ensaio João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova, o crítico Lorenzo Mammì define a Bossa como “promessa de felicidade”. Caetano Veloso afirma que o Brasil ainda precisa merecer a Bossa Nova

Já se disse que uma música assim – sofisticada e simples ao mesmo tempo, elegante e inovadora, síntese de raízes nacionais e influências estrangeiras de alto nível (o jazz e a melhor música norte-americana, Villa-Lobos, Debussy e Ravel) – só poderia ter nascido em época otimista como a de Juscelino Kubitschek.

É tentador, mas complicado, praticar esse tipo de sociologia das artes, em que estas expressariam diretamente o momento histórico. Mas, com os devidos cuidados, a ligação pode ser feita. Ou alguém aí imagina alguma coisa parecida com a Bossa Nova surgindo no Brasil de hoje? 

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