Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Análise: Arnaldo Antunes mostra em novo disco que não existem fronteiras entre o samba e o rock

As 13 faixas de 'RSTUVXZ' refletem a versatilidade de um artista que não tem medo de ousar

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 06h00

Transitar entre o samba e o rock, gêneros musicais tão antagônicos, dentro de um álbum, em tese, pode não parecer algo muito bom. Seria como misturar ingredientes altamente conflitantes na mesma receita. Em tempos de rótulos exacerbados, RSTUVXZ, novo disco de Arnaldo Antunes, poderia gerar algum tipo de estranhamento por parte do público. Poderia. As 13 faixas do mais recente trabalho do músico, no entanto, mostram um artista versátil. A ousadia de driblar o óbvio e alternar samba, rock, soul e tantos outros estilos funcionou bem. Dos sambinhas com cara de sábado à tarde, passando pela sujeira das guitarras distorcidas, Arnaldo consegue dar liga a tudo e RSTUVXZ torna-se um projeto altamente coeso, original e refinado.

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RSTUVXZ começa com A Samba. Música boa, leve e com direito à cuíca e pandeiro. Já na segunda faixa, Se Precavê, a proposta do disco fica evidente. A calmaria dá lugar às guitarras e a voz delicada de Arnaldo cede espaço a um rock berrado e que lembra os melhores momentos do músico à frente dos Titãs. Se Precavê, aliás, é uma parceria de Arnaldo com o amigo Marcelo Fromer, morto em 2001, e que estava guardada na gaveta há tempos.

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A mudança sonora se repete em Amanhã Só Amanhã, outro sambinha vespertino. Em Eu Todo Mundo as guitarras aparecem ainda mais pesadas. Também Pede Bis faz a ponte entre o samba e o rock e tudo começa a fazer sentido até mesmo para o ouvinte mais desatento.

A oscilação sonora entre as canções ganha corpo a partir de Pense Duas Vezes Antes de Esquecer. Famosa na voz de Marcelo Jeneci, a composição foi lançada por ele em seu álbum de estreia, Feito pra Acabar (2010), e regravada por Ortinho no ano seguinte. A versão de Arnaldo Antunes, todavia, está mais soturna e pesada.

Ao final do trabalho, as 13 faixas de RSTUVXZ não parecem estar presas a nenhum rótulo. A impressão é que todas as composições pertencem a um único gênero musical. O chamado combate sonoro, tão explícito entre o rock e o samba, fica quase que imperceptível. Diante de uma sociedade que sente a necessidade diária de rotular a tudo e a todos, RSTUVXZ chega para mostrar que música boa e de qualidade não é medida por classificações superficiais e burocráticas. Arnaldo Antunes acertou em cheio e provou que a linha entre samba e rock é mais tênue do que muitos poderiam imaginar. 

 

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