Matt Rourke/AP
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Análise: Aretha Franklin tem canções que vão muito além do amor

Letra contundente de 'Respect', por exemplo, faz exigência por igualdade e liberdade das mulheres

Jon Pareles, THE NEW YORK TIMES

16 de agosto de 2018 | 17h57

Com seus indeléveis sucessos do final dos anos 1960, Aretha Franklin trouxe o fervor rigoroso da música gospel para canções populares que falavam muito mais que de amor. Hits como Do Right Woman - Do Right Man, Think, (You Make Me Feel Like) A Natural Woman e Chain of Fools definiram um arquétipo feminino moderno: sensual e forte, sofrida mas indomável, apaixonada mas não entregue.

Quando Franklin cantava Respect, canção de Otis Redding que se tornou sua marca registrada, nunca falava apenas sobre como uma mulher queria ser recebida pelo marido quando voltava do trabalho. Falava sobre uma exigência por igualdade e liberdade, um prenúncio do feminismo carregado por uma voz que não aceitava mixaria.

Franklin teve uma carreira célebre e grandiosa. Colocou mais de 100 singles nas paradas da Billboard, incluindo 17 no Top 10 da música pop e 20 hits Nº 1 na lista do R&B. Recebeu 18 Grammy, além de um prêmio pelo conjunto da obra, em 1994. Foi a primeira mulher a entrar no Hall da Fama do Rock & Roll, em 1987, segundo ano do Hall. Cantou na posse de Barack Obama, em 2009, e em shows anteriores à posse de Jimmy Carter, em 1977, e de Bill Clinton, em 1993. Também se apresentou na Convenção Nacional Democrata e no funeral do reverendo Dr. Martin Luther King Jr., em 1968.

Sucessivas gerações de cantoras de R&B a imitaram abertamente, entre elas Natalie Cole, Whitney Houston, Mariah Carey e Alicia Keys. Quando a revista Rolling Stone colocou Franklin no topo da lista das 100 Maiores Cantoras de Todos os Tempos, em 2010, Mary J. Blige prestou homenagem: "Aretha é um presente de Deus. Quando se trata de se expressar através da música, não há ninguém que possa chegar perto dela. Ela é a razão pela qual as mulheres querem cantar".

Os vocais etéreos e os constantes improvisos de Franklin tinham raízes no gospel. Esta foi a música que ela cresceu ouvindo, nas igrejas batistas onde pregava seu pai, o reverendo Clarence LaVaughn Franklin, conhecido como C.L. Ela começou a cantar no coro da Igreja Batista Nova Bethel, em Detroit, e logo se tornou uma estrela solo.

O gospel moldou suas investidas tremulantes, suas pontas rascantes, suas construções galvanizadas e suas exortações percussivas; também moldou seu modo de tocar piano e os arranjos vocais de canto e resposta que ela dividia com o coro. Ao longo de toda a sua carreira no pop, soul e R&B, Franklin sempre voltou para se recarregar com álbuns gospel: Amazing Grace, de 1972, e One Lord, One Faith, One Baptism, gravado na igreja New Bethel, em 1987.

Mas o gospel era apenas uma parte do seu vocabulário. O caráter lúdico e a sofisticação harmônica do jazz, a dor e a sensualidade do blues, a veemência do rock e, mais tarde, a emotividade da ópera, tudo isso estava à sua disposição.

Franklin não sabia ler partituras, mas era uma cantora americana completa, ligada a todos os extremos. Em uma entrevista ao The New York Times, em 2007, ela contou que seu pai lhe dissera que ela "iria cantar para reis e rainhas" "Felizmente, tive a sorte de cantar para reis e rainhas", ela disse, acrescentando: "E também presidentes".

Apesar de toda a admiração que Franklin recebia, suas fortunas comerciais foram inconstantes, pois suas gravações entraram e saíram de sincronia com os gostos do mercado pop.

Depois de sua explosão no final dos anos 60 e de uma série de sucessos pop no início dos anos 70, a era da discoteca a deixou de lado. Mas Franklin viveu um ressurgimento nos anos 80 com seu álbum Who's Zoomin Who e seu single vencedor do Grammy, Freeway of Love. Nas décadas seguintes, ela seguiu como uma espécie de cantora soul emérita: uma diva indomável e uma parceira de dueto que conferiu autenticidade a colaboradores como George Michael e Annie Lennox. Entre seus últimos produtores estiveram estrelas como Luther Vandross e Lauryn Hill, que foram seus fãs desde criança. 

 

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