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Bob Dylan no Newport Folk Festival de 1965, em Rhode Island AP Photo/Jeff Robbins

Análise: Aos 80 anos, Bob Dylan é urgente e necessário aos latino-americanos

Há 80 anos, nascia Bob Dylan, um dos principais músicos de sua geração e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 08h00

Antes que este senhor Robert Allen Zimmerman, que ficaria conhecido depois como Bob Dylan, colocasse os pés no mundo há exatos 80 anos, em 24 de maio de 1941, na pequena cidade de Duluth, um vilarejo exportador de minério de ferro ao norte de Minnesota, nos Estados Unidos, já existia o protesto, já existia o violão e os dois juntos, protesto e violão, já haviam se encontrado em muitas figuras humanas, desde as cantigas de escárnio da Idade Medieval. Para ficar em apenas duas criaturas que Zimmerman conhecia bem, Leadbelly, um homem negro nascido em 1888, passou boa parte da vida na prisão por ter matado um branco e esfaqueado outro tocando violão de 12 cordas, bandolim, gaita de boca e acordeão enquanto cantava versos inspirado nas notícias que lhe chegavam.

Só em 1938 ele mandou uma carta em forma de canção para o presidente Franklin Roosevelt com Dear Mr Roosevelt e falou do indigno caso Scottsboro Boys, quando nove homens negros da cidade de Scottsboro foram condenados à morte por uma controversa acusação de estupro a duas mulheres brancas em 1931. Mais de dez anos depois, antevendo a derrocada de Hitler no derrocável ano de 1942, cantou o blues Mr Hitler: “Nós vamos destruir Hitler / Vamos destruir Hitler algum dia / Você não é nenhum ferro, você não é uma rocha sólida / Você não é nenhum ferro, você não é uma rocha sólida / mas nós, americanos, dizemos: ‘Sr. Hitler tem que parar!’

O outro homem é Woody Guthrie, um dos criadores do folk pré-moderno, atuante nos anos 40 e redescoberto por projetos de gravadoras nos 70, nos 80 e em 2003. Como Leadbelly, o branco Woody, depois de passar os 55 anos de vida sendo visto como um comunista pelos conservadores, fez a cabeça de Zimmerman com apenas um violão folk (nada blues) e alguns bons versos. O tampo de seu instrumento trazia a frase “esta máquina mata fascistas” e músicas como a nacionalista This Land Is Your Land acabou inserida nas escolas de ensino primário nos Estados Unidos como um hino quase obrigatório. Tear The Fascists Down (“Derrubar os Fascistas”, mostrando que a destruição dos fascistas se tornou uma obsessão depois da entrada dos EUA na Segunda Guerra) e mais 124 músicas gravadas em 1944 desapareceram e só foram descobertas em 2003, quase 40 anos depois de sua morte, por uma siciliana moradora do Brooklyn que resolveu ver o que havia em alguns contêineres de papelão jogados em seu porão.

Mas quando Zimmerman usou todo esse material de indignações para se tornar Bob Dylan, algo desses e de muitos cantadores do mundo, dos tocadores palestinos de oud contrários à invasão de suas terras pelos recém chegados judeus aos violeiros de Caruaru versando as dores da seca, todos pareciam um só. O 'folkers' invisíveis dos anos 40 mimetizaram-se em um homem que entendeu neles a força que poderia ter um violão e uma voz cantando letras bem construídas. Dylan, já não mais um judeu, politizou a canção popular para além do que fizeram Leadbelly e Woody Guthrie em tempos não televisionados e usou a máquina industrial para amplificá-la. É a partir de sua figura que os três pês, a poesia, a política e o pop, se juntam para criar o estado do pós entretenimento no rock dos ainda eufóricos Elvis e Beatles.

A América Latina recebeu Dylan à sua maneira. Por aqui, as letras e o aço de seu violão tiveram uma força política maior por chegarem em períodos sombrios e em meio a uma gama de crimes militares produzidos por ditaduras sob as quais o próprio autor jamais viveu. Se ser Dylan nos Estados Unidos requeria coragem, o ser na porção Sul do Equador era como colocar a cabeça a prêmio. Ao fazer do protesto sua matriz, suprimindo mesmo valores artístico ao usar harmonias cruas e violão e gaita primários, Dylan se agigantou ao acertar os corações dos injustiçados. Ali, o que se fazia não era música, mas denúncia. E seu alvo não era seu país, mas o mundo. Um rápido teste do tempo prova sua proeza. Ouçamos neste 24 de maio de 2021 o que ele diz em Blowin’ in the Wind, lançada no álbum The Freewheelin’, de 1963: “Quantos anos algumas pessoas podem existir até que sejam permitidas ser livres?/

Quantas vezes um homem pode virar sua cabeça e fingir que ele simplesmente não vê? / Quantas orelhas um homem precisará ter até que possa ouvir as pessoas chorar? E quantas mortes serão necessárias até que ele saiba que pessoas demais morreram?”

Os artistas das Américas espanhola e portuguesa o ouviram como um libertador e empunharam seus violões. Geraldo Vandré, no Brasil, foi submetido a um exílio depois de dylanizar com força sua Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, em 1968. As notícias sobre tortura contra Vandré nunca foram confirmadas e ele faz silêncio sobre o assunto desde 1973, quando retornou do exílio. Victor Jara, no Chile, foi morto aos 40 anos assim que o general Augusto Pinochet chegou ao poder, em 1973, depois de cantar seu Blowin In The Wind em Plegaria a un Labrador: “Liberta-nos daquele que nos domina na miséria”. León Gieco, na Argentina, se tornou, com sua gaita e seu violão, o Bob Dylan portenho e levou a Mercedes Sosa o vigiado hino Sólo le Pido a Diós. Silvio Rodrigues, em Cuba, com uma proposta musical mais trabalhada, trouxe uma poesia humanista e libertária para criar, com Pablo Milanés e Vicente Feliú, a altamente politizada Nova Trova Cubana.

Mas talvez seja o Brasil o lugar onde os fragmentos do espírito de Dylan se incorpore tantas vezes, em tantos artistas diferentes, o tempo todo. Depois de Vandré, a lista só cresceu: Zé Ramalho, Belchior, Raul Seixas, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Chico Cesar... Aos 80 anos, Dylan consegue ser mais necessário a cada ano e impressionantemente atual.

Quatro momentos em que Dylan se materializou na obra de artistas brasileiros.

1. Chico César em 'Os Reis do Agronegócio'




2. Zé Ramalho em 'Batendo na porta do Céu'



3. Gal Costa canta 'Negro Amor' (Versão de Caetano para 'It's All Over Now, Baby Clue')



4. Belchior em 'Apenas Um Rapaz Latino Americano'


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Bob Dylan faz 80 anos como uma lenda viva da música

Relembre a trajetória de Bob Dylan, compositor de clássicos como 'Blowin' in the Wind' e primeiro músico a ganhar o Nobel de Literatura, e ouça suas músicas

Redação, EFE

24 de maio de 2021 | 09h33

Músico, cantor, compositor e poeta americano e uma das figuras culturais mais importantes de todos os tempos, Bob Dylan completa 80 anos nesta segunda-feira, 24, aclamado como uma lenda viva do folk rock. Com uma carreira que é medida em 39 discos e 125 milhões de cópias vendidas, Bob Dylan tem recebido uma enxurrada de homenagens da mídia há dias, mas especialmente de seus seguidores, entre os quais ele tem outros ícones musicais como Patti Smith ou Chrissie Hynde, vocalista dos Pretenders.

Patti Smith, que afirma ser sua admiradora desde a adolescência, dedicou um concerto a ele neste fim de semana no festival Kaatsbaan em Tivoli, no interior do estado de Nova York; enquanto Hynde acaba de lançar um álbum cover, Standing in the Doorway: Chrissie Hynde canta Bob Dylan.

Enquanto isso, jornais de todo o mundo listam seus clássicos essenciais, estações de rádio e televisão transmitem programas especiais em sua homenagem, e sua cidade natal, Duluth (Minnesota), dá início a um ano de comemorações. O fascínio é tanto que mesmo uma universidade, a de Tulsa (Oklahoma), tem um Instituto de Estudos sobre Bob Dylan e, no domingo, celebrou um simpósio com especialistas "dylanologistas" como seu principal biógrafo, Chris Haylin, que acaba de publicar Double Life of Bob Dylan: A Restless, Hungry Feeling, 1941-1966.

Além disso, está pendente o retorno do espetáculo da Broadway Girl in the North Country, baseado em suas canções, que estreou pouco antes de a pandemia forçar o fechamento da meca do teatro nos Estados Unidos. Mesmo assim, segundo relatos, Dylan teria assistido anonimamente e ficado comovido.

Durante o hiato da covid-19, Bob Dylan aproveitou a oportunidade para lançar Rough and Rowdy Ways, seu primeiro álbum de canções inéditas em oito anos, que recebeu críticas estelares com o estandarte de Murder Most Foul, uma canção de 17 minutos que ele condensa a história e a cultura americanas.

Sua qualidade como compositor levou Bob Dylan a ser o primeiro músico a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 2016, por criar "novas expressões poéticas" na tradição do cancioneiro americano, provavelmente a única distinção polêmica em uma longa lista de Grammys, Oscar e Pulitzer. Ausente da cerimônia de Estocolmo, em seu discurso de aceitação seis meses depois, o músico explicou que começou a escrever suas canções fazendo do jargão do "folk" seu próprio vocabulário, mas contando com "sensibilidades" e "uma visão informada do mundo, que ele "aprendeu com os clássicos da literatura".

Pouco dado a entrevistas, mantendo uma vida pessoal discreta e longe das câmeras, no ano passado revelou ao The New York Times: “As canções parecem se conhecer e sabem que posso cantá-las, vocal e ritmicamente. Escrevem-se sozinhas e contam comigo para cantá-las."

Vida e obra de Bob Dylan

Antes de se tornar um símbolo cultural, Bob Dylan era Robert Zimmerman, filho de mercadores judeus que, em 1961, decidiu abandonar a faculdade e se mudar da cidade mineira de Hibbing, em Minnesota, onde cresceu, para uma vibrante cidade de Nova York, que lhe ofereceu um futuro artístico.

Na Big Apple, acabou se tornando um dos nomes mais famosos do ecossistema criativo que povoou e deu vida ao bairro de Greenwich Village, assinou contrato com o produtor Bob Johnton pela Columbia Records e, em 1962, lançou seu primeiro álbum, Bob Dylan.

A outrora encarnação musical do movimento anti-guerra dos anos 60 e do espírito hippie aproximou-o de seu ídolo Woody Guthrie, entrou nos clubes emergentes da cena folk e criou canções internacionalmente aclamadas, como Blowin' in the Wind, Masters of War e The Times They Are A-Changin.

Desde então, não sem buracos dignos de uma vida bem vivida, desde um acidente de motocicleta que o obrigou a ficar no sossego de seu porão até algumas obras de fraca recepção após sua conversão espiritual ao cristianismo, Dylan alimentou sua lenda musical com canções, covers e apresentações originais em todo o mundo.

Entre os álbuns mais famosos de Bob Dylan estão:

  • Love & Theft (2001)
  • Modern Times (2006)
  • Tempest (2012)
  • Fallen Angels (2016)
  • The Essential Bob Dylan
  • Bob Dylan Live. 1961-2000

No final do ano passado, Bob Dylan vendeu ao grupo Universal Music por cerca de US$ 300 milhões os direitos de todo o seu catálogo musical, que inclui 600 canções e é considerado um dos mais extensos da música contemporânea.

 

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