Nelson Antoine/MILENAR IMAGEM
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Análise: Afinal, que Virada Cultural é essa que Doria e Sturm querem fazer?

Ao chamar a imprensa para tentar explicar a reforma na Virada Cultural de 2017, o secretário de Cultura de Doria, André Sturm, sustenta ideias frágeis sem nenhuma base estatística e reafirma o argumento de descentralização da festa para combater o que chama de grandes concentrações de público

Julio Maria, O Estado de .Paulo

08 Dezembro 2016 | 16h55

A revisão da Virada Cultural que está sendo proposta pelo prefeito eleito João Doria e seu secretário de Cultura, André Sturm, parte de distorções conceituais perigosas, filtradas subjetivamente por suas impressões pessoais e sustentadas com ideias sem nenhuma comprovação estatística. Sturm falou para a imprensa na manhã desta quinta-feira (8) em uma sala no prédio da Caixa Cultural, na Praça da Sé. Um pouco tenso, esgrimando contra as investidas mais acentuadas dos jornalistas, ele reforçou a decisão de levar os shows maiores para o Autódromo de Interlagos para descentralizar a festa e usar mais os equipamentos públicos, como teatros e bibliotecas, para atrair pessoas que, em geral, não frequentam esses lugares. A primeira fala de Sturm explicou sobre suas primeiras inspirações. Ele mesmo, que vai às vezes à Virada, e alguns de seus amigos, chegaram à conclusão de que o público que vai aos grandes shows segue para o centro apenas para ver aquele grande show e ir embora. Assim, não faria sentido manter esses grandes shows no perímetro central.

1. O que são os grandes shows de uma Virada? Depois de questionado sobre essa ideia na coletiva de imprensa, o próprio secretário refez o conceito. O que ele quer dizer com grandes shows são palcos que atraem grandes concentrações de público. Na proposta de Sturm, não pode mais haver espaços com esse potencial, como o palco brega no Largo do Arouche. Para ele, a concentração diante desses palcos é muito grande, causando desconforto na plateia e nos moradores do centro. Uma senhorinha, como lembrou, foi reclamar com ele pedindo que pensasse nos moradores do Arouche logo no dia de sua nomeação. O Largo do Arouche, um dos mais bem sucedidos da Virada, atrai o mesmo público do que palcos como o República, o Barão de Limeira e o Anhangabaú. Se pensa em mexer com ele, deslocando-o para Interlagos, é de se supor que vai mexer também com os outros. E se vai mexer com os outros vai, sim, mudar radicalmente a essência ocupacional da Virada Cultural.

2. Quem disse que o público que procura shows maiores não fica no centro para assistir a outras apresentações? Não se sabe a origem desse pensamento, mas seria importante comprová-lo já que ele está sendo a base de toda a reforma proposta por Sturm. O que se observa ano a ano é o contrário. Casais, famílias e grupos de jovens que acabaram de assistir a uma apresentação na Praça da República saem pela Avenida Ipiranga, viram à esquerda na Rio Branco, se encontram com outras pessoas vindas da vizinha São João e seguem para a frente da Estação Julio Prestes para verem um show do Ira!. Enquanto isso, outras marchas democráticas fazem o caminho contrário, saindo de um show da Nação Zumbi na Julio Prestes e seguindo para chegar ao Teatro Municipal, onde Fagner vai apresentar na íntegra o show de um de seus álbuns históricos.

3. A Virada Cultural não e um festival de música.

Ao seguir pensando em confinar parte das atrações “de luxo” em Interlagos, Sturm pensa como produtor de espetáculos, não como gestor público. A Virada não é um festival de música, como o Lollapalooza. Sua alma é outra, e ela será esvaziada de sentido assim que for desconectada da cidade, em um lugar que Doria mesmo sonha em privatizar o quanto antes. Música, durante aquelas 24 horas de imersão em uma terra que chegamos a esquecer que nos pertence, é seu pano de fundo, o chamariz, a isca que nos leva até o coração de nossa cidade e que nos mantém acesos madrugada adentro. É onde entra a importância de uma curadoria ousada para criar interesse popular mesmo trabalhando com orçamentos menores, juntando Toni Tornado e a velha guarda da soul music brasileira na República, os remanescentes da Jovem Guarda na São João, as rodas de choro de São Paulo na Praça do Patriarca, os caipiras cantando em nome de Inezita Barroso e os musicais que só poderiam ser vistos em teatros caros revezando-se no Vale do Anhangabaú. Essa distribuição de encontros inéditos que só se vê na Virada deveria estar em uma cláusula pétrea, cimentada em um estatuto que as gestões anteriores cometeram o grave deslize de não tombar.

Fica difícil imaginar, afinal, que Virada é essa que está na cabeça de João Doria e André Sturm. Eles querem manter a relevância do Centro mas não querem concentrações maiores de público. Querem gente mas não querem muita gente. Eles vão usar parte importante da verba curta que terão para criar um custoso apêndice da Virada pagando cachês caros em uma região que estará geograficamente apartada do Centro. Quem for a Interlagos vai gastar tanto tempo de locomoção que terá de abrir mão das apresentações pela cidade. Sturm não parece querer retroceder na medida que tomou ouvindo apenas um dos 12 milhões de habitantes de São Paulo, João Doria. E então, quando chegar dia 19 de maio de 2017, esses homens poderão ter uma lição memorável. Ao colocar atrações consideradas menores por algum conceito subjetivo em um coreto qualquer para diminuir o fluxo das ruas e preservar algo que ainda não ficou claro, irão olhar para a plateia e se perguntar do fundo de suas almas: “Mas de onde foi que saiu tanta gente?”.

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