PEDRO DE MORAES/DIVULGACAO
PEDRO DE MORAES/DIVULGACAO

Análise: A única forma de arte que aceita a produção em parceria

Grandes Parcerias da MPB, O Musical que estreia neste final de semana, em São Paulo, levanta a bola: o que seria da música brasileira se não fossem esses encontros?

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 06h00

As parcerias. A única forma de expressão artística que as aceita é a música, como se o produto de um mais um fosse um, e um que não repete nem o primeiro nem o segundo, mas cria um terceiro ser com vida própria e que só existe naquela combinação. Na concepção de outras artes – cinema, literatura, visuais, dança, artesanato, – não há a prática de parcerias por ao menos um motivo aparente: a música cantada, e 98% da produção musical popular do mundo é feita para vozes, é a única arte composta por dois pilares que requer habilidades distintas muitas vezes incompatíveis em uma mesma cabeça: letra e música. E foram elas que, quando um só elemento não deu conta de desempenhar as duas funções, uniram almas cheias de luz por toda a história.

A música brasileira moderna se ergue em parcerias. Chega de Saudade, que João Gilberto grava em 1959, é uma filha parida três anos antes pelo mais popular dos casamentos: Tom e Vinicius. Tom, com suas melodias encadeadas por estonteantes linhas de baixo, pontas de acordes e toda a imensidão que existia entre um e outro, se tornou a voz da alma de Vinicius.

A monogamia, contudo, nunca foi uma prática na música brasileira e mesmo Tom e Vinicius não ficariam juntos até que a morte os dissolvessem. Uma das puladas de cerca mais produtivas do poeta se deu em 1966, quando ele e Baden Powell foram aos terreiros das religiões de matrizes africanas (apenas no campo das ideias, diga-se) para criar uma linguagem batizada pleonasticamente de afro-sambas (e que samba não é afro?).

Gil e Caetano representam um curioso caso de falsa parceria, existente mais no imaginário do que nos registros. São menos de dez canções assinadas pelos dois baianos, que também subiram poucas vezes a um mesmo palco antes de saírem em turnê para celebrar seus 50 anos de amizade em 2015. Suas maiores obras não foram feitas em parceria porque os dois se estabeleceram como solteirões convictos em suas criações. Juntos, com tantas ideias se sobrepondo em letra e música, não durariam dois meses. Paula Fernandes e Luan Santana são sinais dos tempos. Ao se juntarem para cantar uma versão de algo que não era nem de um nem de outro, o noivo fugiu antes da cerimônia.

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