AMANDA PEROBELLI / ESTADÃO
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Análise: 2017 foi um ano abençoado para o rap nacional

Baco Exu do Blues, Djonga, niLL, Rincón Sapiencia, Don L, Flora Matos... Uma temporada que colocou o rap nas alturas

Ronald Rios, ESPECIAL PARA O ESTADO

27 Dezembro 2017 | 06h00

Gato escaldado no rap que sou, eu olhei lá em janeiro com moderada desconfiança sobre 2017 ser o “ano lírico”. Sou um consumidor de rap desconfiado. Não sei se é por torcer para o Botafogo ou por saber que as coisas até podem melhorar entre o 'Poderoso Chefão 1' e o 'Poderoso Chefão 2', mas sempre vai haver o 'Poderoso Chefão 3' como prova de que é prudente se preparar para o pior – não importa o quão tranquila ou favorável esteja a situação.

Ao final de 2016 havia muita expectativa em muita gente. Um dos primeiros a passar no teste de fogo foi Djonga. Heresia é um disco de rap pesado. “Pesado” é daqueles adjetivos jogados a esmo no rap, então considere que não estou usando como elogio mas sim como categoria: “rap pesado”. Tipo “heavy metal”, entende? A voz e as linhas do Djonga são espadas que dão lá no estômago igual numa cena de Gladiador. “Tem quem acha graça zoar viado. Eu acho engraçado um racista baleado”, – ele solta.

Há anos rola o cansativo debate “O rap pode ser de festa?” Claro. Mas que ele, por favor, seja de revolta também – porque o rock é um conservador reacionário e a MPB ainda está nessas de abraçar a Lagoa pedindo paz. O rap é punk rock. O rap é o jovem. Pro bem ou pro mal. O jovem às vezes é um saco – e o rap também. Mas é fim de ano e não vou me distrair falando dos raps chatos de 2017.

Caras novas colaram: Baco Exu do Blues destruiu com Esú. Mesclou de forma natural o trap de Atlanta com a musicalidade baiana inspirada pela África. O CD é um grito de desespero. É a cena do banheiro em Psicose. Infalível e aterrorizante. O jovem niLL de Jundiaí mostrou porque o rap é um gênero tão original. Ele fez um CD que soa diferente de tudo da cena. Ele em Regina é como se fosse o garoto estranho que ninguém puxa conversa na sala de aula até o dia em que ele faz uma piada que todo mundo ri, até a professora. E pronto, ele cai nas graças da galera.

Mas os experientes não deixaram os novatos sozinhos no fronte: Pé no Chão mostrou um Rodrigo Ogi mais uma vez como o mestre do flow brasileiro, só que dessa vez rimando mais sobre sua vida do que a dos personagens que ele vê em São Paulo. Alguns MC’s ficam velhos antes dos 25. Quatro discos (2 com o grupo Contrafluxo mais 2 discos solo) e um EP depois, o Ogi está apenas começando. Igual ao Rincon Sapiência. Há mais de 10 anos no rap, agora começou a desfrutar com mais expansão do trabalho colocado nas canetas e beats por anos. Ele veio com um disco rico em orgulho preto e amor. Ele é nosso 2Pac antes do Suge Knight transformar o maior rapper de todos os tempos em um personagem gangsta. Tem incrível jogo de palavras. É nosso Lil Wayne que não age como um adolescente mimado. Saiu de saia na capa de Galanga Livre. Essa saia é a capa do super herói da cultura que dominou o ano.

Don L é um monstro. Roteiro Pra Aïnouz vol.3 é uma film noir dum nordestino fazendo rap em São Paulo, desvendando enigmas, se apaixonando e se partindo. Que caneta, flow, voz, musicalidade. É um disco grandioso. Um de tantos que o ano nos trouxe. 2017 foi o ano lírico sim. E foi muito bom. Existem discos melhores lançado em outros anos? É claro. Mas um ano comportar tantos ótimos lançamentos como esse fez era raríssimo no rap nacional. O desejo agora é que o mercado se expanda, a crise diminua, o público possa frequentar os shows e que todo ano seja lírico.

Rapaz, 2017 foi tão abençoado que até a Flora Matos está de volta. Falando de amor. Rimando e cantando com sua voz e rimas raras. Vou reclamar o quê?

RONALD RIOS É ESCRITOR E APRESENTADOR DO RAPCRU

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