David James/Warner Brothers Pictures
David James/Warner Brothers Pictures

Análise: 1987, o ano em que o hard rock encontrou seu auge no exagero

A Era do Rock é a celebração de um gênero hoje zumbi. Morto, mas não enterrado, um caminhante sem vida por turnês nada mais do que pura nostalgia

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2017 | 04h00

Em julho de 1987, o mundo foi abalado por Appetite for Destruction, o disco de estreia do Guns N’ Roses, banda liderada pelo enlouquecido Axl Rose, acompanhado pelo virtuoso e estiloso guitarrista Slash.

Um disco, com 30 milhões de unidades vendidas, era sucesso de crítica e público. O mundo não sabia, mas testemunhava ali o canto do cisne do hard rock, em sua essência, nos exageros e nas qualidades. 

O Guns N’ Roses emulava o visual do glam rock, ao desapegar da cor preta, e os cabelos longos do heavy metal. No epicentro, os riffs de guitarra musculosos, mas não acelerados demais. Os vocais de Axl, agudos e destemidos, cantavam um estilo de vida de rock star, a tal tríade de sexo, drogas e rock and roll.

E por que citar Guns N’ Roses aqui? Oras, é a inspiração para o personagem Stacee Jaxx – interpretado no filme Rock of Ages por Tom Cruise – no musical A Era do Rock, que estreia em 2 de junho por aqui, vivido por Ricardo Marques.

Uma estrela entorpecida pelo próprio ego. A era dos deuses do rock chegava ao fim com a última divindade, Axl, extasiada demais consigo mesma e incapaz de perceber se tratar de uma espécie em extinção. 

A Era do Rock é a celebração de um gênero hoje zumbi. Morto, mas não enterrado, um caminhante sem vida por turnês nada mais do que pura nostalgia – mais uma vez, estamos falando de vocês, Guns N’ Roses.

Naquela segunda metade da década de 1980, contudo, era o ambiente no qual todo o jovem minimamente roqueiro queria viver. O rock era o espaço dos populares, hábitat das estrelas e suas estrelices. 

Na trilha sonora, o retrato de uma era. No cinema, havia espaço para o rock robusto do Night Ranger, David Lee Roth e Poison, para a verve comercial do Whitesnake, para a euforia juvenil controlada do Twinsted Sisters, para a fúria sexual do Def Leppard, para a pose de bad boys do Bon Jovi e, principalmente, para as power balads de bandas como Journey e Foreigner. I Want to Know What Love Is, do Foreigner, é um pedido de ajuda, uma prova de que os roqueiros também podem amar. 

E tudo isso chegou ao fim em 1987. Foi com o apetite por destruição do Guns N’ Roses e de um mercado fonográfico sanguessuga. O rock sugado até restar mais nada de valioso ali dentro. E, não é por acaso, que justamente na virada de década, no início dos anos 1990, o hard rock foi deixado de lado.

Os jovens queriam saber de um tal de grunge, que nascia em Seattle e não fazia pose de rock star. Kurt Cobain e companhia não precisavam disso, afinal. Foi a vez dos esquisitos. 

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