Jorge Bispo
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Ana Costa e Zélia Duncan lançam disco em que tratam, com delicadeza, de temas ligados às mulheres

16 canções inéditas, todas compostas por Ana e Zélia, formam o repertório do disco 'Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz', lançado pela Biscoito Fino e já disponível nas plataformas digitais e lojas físicas

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2020 | 07h00

Era para ser só uma música, feita sob encomenda e que falasse sobre a mulher. Ana Costa fez a melodia e já chegou para sua parceira de composição, a letrista Zélia Duncan, com o enredo em mente. “Queria fazer uma música sobre uma mulher trabalhadora, com dupla função, na rua e em casa”, conta Ana Costa. Zélia, que adora ser desafiada dessa forma, debruçou-se sobre a história dessa mulher. “Ela mandou para mim esse samba que é super de raiz”, diz Zélia. Ela escreveria sobre uma mulher negra, um corpo negro. “Comecei a me preocupar com isso: eu, como mulher branca, como falar de uma realidade que não é a que eu vivo de um jeito respeitoso, que dê voz, mas sem parecer que sei uma coisa que não é minha? Mas ficou muito natural na música.”

Nascia ali não só a canção Uma Mulher como todo um projeto, com conceito, poesia, universalidade e relevância. A partir dessa música, Zélia propôs a Ana fazer dez canções sobre o universo feminino. E com essa mesma dinâmica: Ana chegaria com a melodia, tema e Zélia desenvolveria as letras. Elas, então, chamariam dez cantoras. No entanto, o projeto se expandiu. “As 10 músicas viraram 16, as 10 cantoras viraram 19”, diz Zélia. “Aí, quando fiz essa música Uma Mulher, passei a pensar em outras cantoras, e comecei a ouvir a voz da Alcione. Não poderia haver outra mulher para cantar essa música.”

As 16 canções inéditas, todas compostas por Ana e Zélia, formam o repertório do disco Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz, lançado pela Biscoito Fino e já disponível nas plataformas digitais e lojas físicas. A abertura fica a cargo das vozes de Letícia Brito e Gênesis, poetas do Slam das Minas RJ, que falam das dores e delícias de ser mulher. Letícia é branca, Gênesis, negra. Zélia e Ana queriam não apenas a diversidade de temas – de violência contra a mulher ao empoderamento –, mas também de representações do feminino. Negras, brancas, gays, héteros, de Norte a Sul.

“Tive muita preocupação com isso, com a representação, pra gente não errar”, comenta Zélia.

Há também uma acertada variedade de ritmos. No início, pensou-se no disco como um álbum de samba, por causa daquela primeira canção que inspirou o projeto, por Ana ser uma cantora e compositora ligada ao samba, por Zélia também flertar com o ritmo – a ponto de ela ter dedicado, em 2015, um disco inteiro a ele, o Antes do Mundo Acabar. Mas elas foram além. “Queríamos cantoras que não fossem só do samba, e isso abriu essa possibilidade para a gente”, conta Ana. “Cheguei com outras ideias.” 

Com direção musical, arranjos e produção musical de Bia Paes Leme, textos assinados pela jornalista Eliane Brum, a filósofa Marcia Tiburi e a escritora Vilma da Piedade – e grande parte do disco gravado por instrumentistas mulheres –, o projeto contou ainda com a participação de Elba Ramalho, Simone, Leila Pinheiro, Isabella Taviani, Joyce Moreno, Daniela Mercury, Áurea Martins, Fabiana Cozza, Cida Moreira, Lucina e Júlia Vargas, Mart’nália e Maíra Freitas, Fernanda Takai e Nath Rodrigues, Teresa Cristina, Mônica Salmaso, além de Alcione. 

As canções, já prontas, foram se encaixando na voz (e no estilo) de cada uma delas. O processo só foi diferente com Elba Ramalho e Áurea Martins, que gravaram composições pensadas especialmente para elas – no disco, as artistas cantam, respectivamente, Sou a Lua do Sertão e Brilham Ao Escurecer. “A Áurea é uma cantora que vai fazer 80 anos, atravessou todo um processo difícil de se manter na carreira musical, cantando na noite, uma mulher negra. Ela mesma diz que, no maior tempo da carreira, cantou para pessoas brancas, não para pessoas como ela”, diz Ana. Já Elba vem representando a mulher nordestina. “A Elba vem do Nordeste, que é um lugar tão machista. O que no sertão pode representar a mulher? E pensei na lua. A lua é feminina. A Elba colocou o nível das interpretações lá em cima”, descreve Zélia. 

Zélia e Ana não aparecem entre as cantoras. Decidiram ficar apenas nos bastidores: além de compositoras, elas assinam a direção artística do disco. Cantar, apenas nos coros. “Cheguei a um ponto que falei para Ana: não sei se você concorda, mas acho que nossa primeira atitude feminista em relação a esse disco tem que ser ceder nosso lugar para outra mulher”, conta Zélia, que, com o passar dos anos, foi fortalecendo seu discurso feminista. “É muito bacana exercitar isso, de ceder lugar para outra mulher, se trata muito disso, uma cuidar da outra.” Ana concordou: “Achei a ideia da Zélia fabulosa, porque a gente teve oportunidade de pensar nas cantoras de acordo com as músicas”. 

Para as duas, o projeto é um ato político. “Não tem como não ser. Ainda que fosse um tema feminino que falasse mais de amor romântico, mesmo assim seria político uma coisa que tem como maioria uma minoria, que tem como maioria mulheres. Porque nascer mulher é nascer tendo que lutar mesmo”, pondera Zélia. Mas o disco também é uma exaltação à mulher. E isso fica muito marcante na faixa-título, cantada alegremente por Simone. “Cada um pode revolucionar seu espaço”, afirma Ana. “E meu pensamento é sempre tentar fazer da melhor forma possível, mais leve, criativa e mostrando que a gente pode ser mulher e ser feliz.” 

Ouça o projeto Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz:

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