Alex Silva / Estadão
Alex Silva / Estadão

Ana Cañas vai para o 'tudo ou nada' em novo disco autoral

Cantora lança quarto álbum da carreira e decreta o fim da busca pela identidade sonora

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

29 Julho 2015 | 05h00

Ana Cañas tem três gatos. Aliás, durante algum tempo, achou que um deles, o Chico, era Chica. Toda manhã, faz de seu ritual limpar a caixa de areia dos bichanos. Em alguns dias especiais, Ana Cañas fuma cigarros daqueles de caixa azul, lights, mas garante que não é fumante compulsiva. Em contrapartida, ela gosta particularmente de correr no fim da tarde, início da noite, em algum parque próximo da casa dela, da mãe ou do namorado – novo namorado, por sinal. Ana Cañas terminou um casamento de 10 anos e, hoje, se redescobre apaixonada. Viveu sua espiral de autodestruição, como de ídolos tais quais Billie Holiday e Amy Winehouse, quando seu pai morreu, em 2006, mas não consome mais álcool e não tem problema nenhum em conversar sobre alcoolismo. 

Ana Cañas está lançando um novo disco, o quarto da carreira, e, se não fosse por este fato, talvez nada citado acima importasse. Tô na Vida, contudo, tem mais dela do que qualquer um dos álbum anteriores. E, entender a mulher de 34 anos por trás da artista, está no centro do trabalho de decifrar o novo direcionamento dela nesta nova empreitada. 

Tô na Vida (Slap/Guela Records) sucede Amor e Caos (2007), Hein? (2009) e Volta (2012), todos gravados em estúdio, e o ao vivo Coração Inevitável, registro cuja direção artística é assinada por Ney Matogrosso. Embora Ana comemore uma década na estrada, ela revela que sentia falta de algo na sua discografia. E, muito provavelmente, era dela mesma. 

Pela primeira vez, Ana lança um disco apenas com composições próprias. São nove assinadas sozinha e cinco parcerias com Arnaldo Antunes, Lúcio Maia, Dadi e Pedro Luís. Mesmo depois de três álbuns, ela se despe como nunca – de forma literal, inclusive, como na capa de Tô na Vida, cuja arte é assinada por Anna Turra e o clique é de Caroline Bittencourt. 

“É tudo ou nada”, escreveu ela na apresentação do disco para a imprensa. Na segunda-feira, 27, no estúdio da produtora que cuida da carreira dela, na Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo, ela explica o radicalismo escrito ali. “É algo muito pessoal”, ela analisa. “De maneira alguma quero ofender ou desapontar as pessoas que acompanham o que eu faço, que compraram meus discos, mas pessoalmente falando, olhava e pensava que talvez não tivesse alcançado algo relevante musicalmente. Sou uma pessoa que se cobra muito. Sentia falta de algo a mais. Sei lá, achava que não tinha feito algo realmente bom.” 

Ela expõe, ao longo de uma hora de entrevista em um dos quartos da casa gigantesca transformada em escritório, que sentia falta de uma identidade musical nas suas composições. “Algo mais definitivo. ‘Afinal, qual é o som da Ana?’, as pessoas diziam. A Ana canta rock, tem um som meio anos 1970, canta balada, tem um power trio e toca guitarra. Definir isso era difícil para mim. Pensava que já estava na hora de fazer um disco que eu saiba quem eu sou. E que as pessoas também saibam.” 

Ana tinha, no palco, seu maior amigo e inimigo. Ama estar ali, cantar para as pessoas, mas, até Tô na Vida, havia relegado o estúdio. Não havia levado para lá a energia e entrega que mostrava diante do público. “Tive discussões profundas e filosóficas de questionar o que estou fazendo com a minha carreira, para onde quero ir, aonde quero chegar. Foi um momento de questionamento profundo que veio esse ‘tudo ou nada’. Tem a ver com isso, sabe?”, ela diz, enquanto mexe nos cabelos encaracolados, meticulosamente preparados na linha tênue entre o despenteado e o arrumado. “Sentia que precisava fazer um disco que gostasse para c.... Que sentisse que eu estava ali. E aconteceu isso”, conta ainda. 

Ana não viveu uma carreira comum, principalmente depois de ser contratada pelo braço de empresariamento de artistas da gravadora Sony Music (então chamada Sony BMG), denominado Day1. Passou pelos anos de aprendizado, cantando em pequenas casas por São Paulo pelo bairro paulistano do Bixiga, estabeleceu-se como atração do prestigiado bar Baretto, do hotel Fasano, onde chamou a atenção de gente como Chico Buarque. Ao chegar à major, contudo, saltou direto para as capas dos jornais de cultura, para as grandes campanhas de marketing e para um mundo que, ainda, lhe era extremamente estranho. 

Amor e Caos, lançado naquele 2007, pontuava bons momentos, principalmente ao escancarar para o País uma voz como a de Ana, com destaque para a versão de Coração Vagabundo, de Caetano Veloso. Mas faltava algo, de fato. Talvez fosse a alma de artista pronta, talvez fosse experiência diante daquele mundo novo. Hein? ainda não rompia com as barreiras da cantora pop, mas trazia já parceiros importantes, como Dadi e Arnaldo Antunes. Volta marcou o fim da passagem pela Sony, entrada na Som Livre e um rompimento drástico e estético. 

(Disco Tô na Vida - Slap/Guela Records – R$ 24,90)

Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi, produtor do álbum ao lado de Ana e atual namorado da moça, é apontado como peça importante nessa reconstrução – ou busca – evidenciada em Tô na Vida. “O ponto de partida? Eu comecei a compor loucamente. Tinha na cabeça a tentativa de resolver a equação de quem é a Ana. Tinha vontade de fazer algo diferente do que eu estava fazendo. Talvez tenha a ver com o meu namoro com o Lúcio, começamos a trocar muita ideia sobre como achar o próprio som, sabe? Ele é uma enciclopédia musical ambulante. Eu pude aprender muito com ele. Achava que conhecia alguma coisa de jazz e de rock e não conhecia nada. Ele é colecionador de vinil e comecei a absorver um pouco deste universo da soul music, pensamos como poderíamos explorar isso em algumas canções.” 

Ao entrar no estúdio El Rocha, em São Paulo, para gravar a canção-título do disco, Maia disse a Ana: “Você só vai sair quando me arrepiar”. Ela lembra da cena ao explicar a função do músico como produtor. “Ele é um instigador”, conta. O disco todo foi gravado ao vivo, “com a gente olhando uns para os outros”, explica. A banda base, formada por Maia (guitarra), Fábio Sá (baixo) e Marco da Costa (bateria) ainda contou com as colaborações de Marcelo Jeneci, Fabá Jimenez, Alex Fonseca e Betão Aguiar. 

Ana se cobrava muito neste “tudo ou nada”. Uma semana antes de começar a gravar, foi internada no hospital com um quadro de pielonefrite, inflamação grave no rim. “Tinha dúvidas e questionamentos”, explica. “É impressionante como isso (disco) vai resvalar para o resto da minha vida, para o bem ou para o mal. Nunca tinha vivido esse processo assim.” 

Já no estúdio, ao telefone com Jeneci, contou ao amigo suas aflições. “Falei: ‘Não estou conseguindo dormir, meu coração dispara, com ânsia de vômito’.” “Então agora você está fazendo um disco”, respondeu o músico, do outro lado da linha. Um álbum cheio daquilo que faz dela quem é, de suas loucuras e sorrisos fáceis, vícios e manias, despedidas e descobertas. E Ana Cañas está feliz e satisfeita com isso. 

ESTREIA DE TÔ NA VIDA

Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195; 3095-9400. 16/8, às 18h. R$ 12 a R$ 14. Show tem participação de Arnaldo Antunes

FAIXA A FAIXA: 

‘Existe’: “Aborda um pouco a loucura da vida, mais filosófica” 

‘Tô na Vida’: “Passei a semana ouvindo soul music e cheguei em casa, tinha corrido, e fiz a melodia no violão”

‘Hoje Nunca Mais’: “Reflexões sobre o fim. Gosto da ideia de gostar de alguém e essa pessoa ter seguido em frente” 

‘O Som do Osso’: “Faltava um rock para o disco. É ‘à la’ Black Keys” 

‘Indivisível’: “Joan Jett feelings. Compus complexa e fui simplificando”

‘Coisa Deus’: “Uma poesia que eu musiquei. Lembrava ‘Flores’, do Titãs, e fomos mudando”

‘Bandido’: “É uma canção maldozinha sobre desejar alguém. É mais lasciva e permissiva” 

‘Feita de Fim’: “Também uma questão que aborda o gênero feminino. Gosto do refrão pela semântica, com influência dohip-hop” 

‘Um Dois Um Só’: “Uma canção de amor. Estava apaixonada e escrevi. Simples” 

‘Amor e Dor’: “Fiz quando meu gato morreu. Tem meu pensamento espírita” 

‘Mulher’: Queria abordar o gênero feminino e dizer tudo aquilo que penso sobre isso” 

Pra Machucar: “Tem uma influência de Neil Young, do disco ‘Crazy Horse’” 

‘Madrugada Quer Você’: “O Arnaldo Antunes fez alguns versos. Mudamos a música no estúdio, foi uma viagem” 

‘O Amor Venceu’: “Foi a primeira canção de todas. A primeira a trabalhar a melodia”

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