Amy Winehouse revigora o soul para o futuro

Amy Winehouse, que na foto ao lado parece a Pitty com umas calorias a mais, tem fama de encrenqueira e beberrona (até o sobrenome soa alcoólico) e carrega nas tatuagens de pin-ups pelo corpo todo, bem ao estilo roqueiro masculino. Mas o que essa branquela inglesa faz de melhor é de desbancar muita negona americana. Esqueça esses pastiches na linha de Dreamgirls, que se procriam em escala torturante. É Amy, dona de um vozeirão surpreendente, quem chega para melhor honrar a soul music que se fazia no auge da era Motown.Seu segundo álbum, adequadamente intitulado Back to Black (Universal), um dos melhores de 2006, chega só agora ao Brasil, mas o atraso de quatro meses é questão menor. Com (apenas) dez canções, todas inéditas e assinadas por ela, sozinha ou com parceiros, uma mais interessante do que a outra, Back to Black veio à cena para durar. É o melhor álbum de soul music em anos. Inspirada na sonoridade de adoráveis girls groups das décadas de 1950 e 60, como The Supremes e The Shirelles, Amy soa anacrônica e até um pouco nostálgica para os padrões da black music atual - muito limitada a falação, gritaria, lamúria, gemedeira; e agravada pela indigência melódica e criativa, que ela rebate com ótimas composições.A exemplo da dupla Gnarls Barkley, dignificada pela voz incrível de Cee-Lo, Amy extrai substâncias revigorantes de velhas fórmulas, como que reatando o elo perdido para um estágio posterior. No primeiro e ótimo single extraído do álbum, Rehab, Amy fala de seus problemas com o alcoolismo, mais especificamente da recusa em participar de um programa de reabilitação. O ritmo puxa para uma levada de gospel, a voz se assemelha incrivelmente ao da grande Etta James, outra branca de timbre retinto e temperamento forte, em seus melhores dias. You Know I?m not Good, o segundo single, também veio para estraçalhar. Ambas estão entre as melhores faixas do CD. Com emissão vocal que lembra às vezes os momentos mais discretos de Shirley Bassey e Aretha Franklin, a faixa-título é outro ponto alto. Nos primeiros acordes, remete a Baby Love, das Supremes, com destaque para o piano rítmico de Victor Axelrod. Em Just Friends ela envereda pelos primórdios do reggae jamaicano. Na baladona rhythm and blues Me & Mr. Jones ela provoca com versos do tipo: ?Ninguém se mete entre mim e meu homem.? Grande parte das letras é de ordem pessoal, o que não é nenhuma novidade em tempos de pseudoescândalos de ordem marqueteira. Mas o perfil intrépido de Amy não parece fabricado como de outras contemporâneas suas. Além do mais, ela canta pra valer, não é mais uma Britney qualquer.Amy tem 23 anos, já integrou um grupo de rap, vem de uma família ligada ao jazz, daí algumas de suas influências notáveis mais no álbum de estréia, Frank (2003) do que em Back to Black. Alguns a comparam a Macy Gray, Sarah Vaughan e outras tantas que servem de referência. Mas, pelo que se apura do novo trabalho, ela tem cacife suficiente para deixar marca própria na moderna soul music.

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