Protásio Nene/Estadão
Protásio Nene/Estadão

Amigos e produtores falam sobre a convivência com Tom Jobim

Nomes como Gal Costa falam sobre a importância do maestro na semana em que se completam 25 anos de sua morte

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 10h00

A morte de Tom Jobim não foi suficiente para apagar as boas memórias que amigos, parceiros e produtores têm do compositor. Engraçado, carinhoso e perfeccionista, Jobim deixou saudade entre as pessoas que trabalharam com ele. O Estado colheu depoimentos de importantes nomes da música brasileira sobre o 'maestro soberano', na semana em que se completam 25 anos de sua morte.

Gal Costa, cantora e amiga que fez um disco em homenagem a Jobim em 1999

Eu conheci a música do Tom na adolescência em Salvador, ouvindo os discos de João Gilberto. Sabia os arranjos que ele fez para esses discos de cor. O conheci pessoalmente no Rio e fiquei grande amiga dele. Fizemos muitos shows, muito mais nos Estados Unidos do que no Brasil. O Tom tem uma influência muito grande por causa da Bossa Nova. Ele era um melodista extraordinário. Fiz um show cantando só canções dele, em todo o mundo. Em qualquer lugar, as pessoas sabem as músicas dele.

Conviver com Tom foi muito bom, porque ele tinha um humor muito engraçado, era muito irônico e carinhoso. Ele é o maior compositor brasileiro, porque a música dele é sofisticadíssima, mas ao mesmo tempo muito palatável e fácil de se aprender. Há algumas mais difíceis, mas de modo geral são muito fáceis. Ele influenciou toda a minha geração com uma música muito sofisticada.

Joyce Moreno, cantora e compositora. Gravou três discos em homenagem a Jobim

Eu o conheci entre os 19 e 20 anos. Fui levada por Márcia Rodrigues, minha aluna de violão que tinha sido escolhida para o papel principal do filme Garota de Ipanema. Eu estava aparecendo nos festivais e ficamos amigos imediatamente. Tom era uma pessoa muito engraçada e um intelectual sem a pose do intelectual. Ele sabia sobre a fauna do Brasil, literatura, filosofia, filologia. 

Ele morava numa casa em formato de navio na rua Codajás, no Leblon. No andar de cima, era onde ficava o piano e onde ele recebia os amigos. Embaixo, havia um varandão onde ficavam os mais novos, a turma do Paulinho (Jobim, filho de Tom). Mas os mais novos também subiam, a gente mostrava as coisas pra ele e ele mostrava as coisas pra nós. Vi composições saindo do forno. Numa festa na casa dos pais da Olivia Hime, ele estava terminando Águas de Março, com versos que depois tirou. Eu estava grávida e ele fez uma brincadeira cantando 'é a promessa de vida na barriga da Joyce'.

Joyce Moreno canta Insensatez (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

Quis gravar um disco com músicas do Tom quando ele ia fazer 60 anos. A imprensa não estava dando atenção a ele e, quando dava, dava de um jeito negativo. Ele estava chateado com isso e ficou contente com a ideia do disco. Convidei o Gilson Peranzzetta para ser o pianista do disco. O Tom fez um texto para a contracapa. Depois fiz outro disco com músicas dele, ao lado do Toninho Horta. Toninho era meu convidado da temporada anual no Blue Note do Japão e tinha uma hora que a gente ficava só no palco, improvisando. Todas as noites, a gente acabava tocando algo do Tom. Lá chegou a notícia da morte e ficamos muito mexidos. Na volta, passamos em Nova York e em uma noite a gente gravou esse disco, ainda impactados pela perda. Depois, fiz um disco na Alemanha com big band quando ele faria 80 anos.

Ele foi o grande compositor brasileiro, ao lado de Villa-Lobos. É a cara brasileira no mundo, o cartão postal do Brasil no século XX foi a música do Tom. Ele deixou um legado universal. Todos os lugares por onde eu passo as pessoas o conhecem. Quando dou workshops em universidades na Europa e nos Estados Unidos, as pessoas conhecem esse repertório. É lindo ver como essa música é apreciada. No Brasil, são outros quinhentos. É como se não tivesse acontecido nada disso. Não há acesso democrático a essa cultura. O grosso da população não sabe que existiu essa pessoa. 

Danilo Caymmi, amigo e músico que fez parte da banda de Jobim

Ele e meu pai (Dorival Caymmi) tinham uma amizade muito sólida. Uma época, meu pai estava com gota e Tom que trazia o remédio, que só tinha nos Estados Unidos. Eles também trocavam cartões postais. Papai o chamava de 'Tonico Abóbora D'água' e o Tom assinava 'Antonio Claustrofobim'. Tom gravou Maricotinha e Maracangalha. Presenciei inúmeras vezes o Tom pegar o papai em casa para ir ao Parque da Cidade conversar. Sempre se consultaram. E sou praticamente da família, porque sou padrinho de casamento do Paulo Jobim e padrinho da Maria Luiza (filha de Jobim).

Danilo Caymmi canta Água de Beber (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

Eu o conheci nos ensaios para o disco Caymmi visita Tom (1964), produzido pelo Aloysio de Oliveira.  O que me impressionou foi o trabalho do Tom, muito jazzístico. Fiquei impressionado com a harmonização e o improviso dele, quase minimalista. Passaram-se os anos e em 1983 comecei a participar da Banda Nova. Meu trabalho ali era cuidar dos ensaios. Primeiro a gente ensaiava os vocais, depois o instrumental. Foi um privilégio trabalhar com grandes músicos. Fizemos muitos concertos e era um sucesso no mundo inteiro. Na hora do palco, o Tom me delegava essa função. 

Ele era extremamente disciplinado. Às vezes, para um concerto só, a gente ensaiava 16, 17 dias. Os arranjos todos passavam por ele. Na estrada, ele não era muito de sair, ficava muito no hotel. O negócio dele era com o Brasil, sempre foi. Ele não gostava de viajar. Ele previu essa destruição das florestas que estamos vendo. Acho que ele estaria muito triste com o que está acontecendo hoje com a Mata Atlântica.

Recebi a notícia da morte em Brasília. Foi muito triste porque eu estava com o neto dele, Daniel. Foi o próprio Daniel que me contou. Sabia-se que ele havia alguma coisa em relação à saúde do Tom, mas ele era muito na dele. Ele gostava muito de Nova York e dos médicos de lá. Foi um choque muito grande. O amor dele pelo Brasil era profundo.

Eduardo Athayde, músico e produtor do álbum Matita Perê (1973)

Em 1965, eu fazia parte do conjunto vocal Quarteto 004. Gravamos um compacto duplo e o Roberto Menescal escreveu a contracapa. Ele nos levou à casa do Tom para ele ouvir nossa versão de O Morro Não Tem Vez. Ficamos amigos e ele foi pros Estados Unidos. De lá, ele me ligou dizendo que tinha alugado uma casa em Ubatuba, na beira da praia, mas estava chovendo e ele queria um lugar para ficar quietinho. Uma amiga que morava em Itacoatiara, em Niterói, ia para a Europa e eu pedi para ela me emprestar a casa. Ele foi para lá de mala e cuia com a família. 

Ele chamou o grupo para gravar Wave e eu ia diariamente à casa dele na rua Codajás. Fomos fazer um show no Teatro Toneleros em 1968 e o convenci a se apresentar com a gente. Desde 1962 ele não fazia show. Essa apresentação saiu no LP Discomunal, com Chico Buarque, Baden Powell e Millôr Fernandes. Quando ele foi para o palco, foi uma apoteose. 

Um dia, ele me ligou de Petrópolis, alucinado, dizendo que tinha feito algo extraordinário. Ele veio ao Rio e me mostrou Águas de Março. Na época, eu estava bem perto do pessoal do jornal O Pasquim. Sérgio Ricardo havia criado o projeto Disco de Bolso, que acompanhava o jornal. O primeiro volume foi com Tom cantando Águas de Março e o João Bosco, que estava sendo lançado, com Agnus Sei. Nessa gravação de Águas de Março, eu que toco violão. A amizade foi ficando cada vez mais sólida. Ele era a pessoa mais engraçada que você possa supor, de uma inteligência brutal. 

Antes de fazer o Matita Perê, ele estava muito receoso. André Midani (diretor da gravadora Phonogram) pediu que eu produzisse o disco e o Tom concordou. Fui direto para a casa dele. Cheguei lá e falei: "Como que eu vou produzir um disco seu? Se eu falar pra tirar uma nota, você vai me mandar à m****". Ele disse: "A gente é muito amigo e você não vai deixar ninguém fazer besteira comigo".

Ouça abaixo a faixa Matita Perê (Tom Jobim/Paulo César Pinheiro)

Fomos para um estúdio no centro do Rio. Ele não gostou do estúdio e fomos tomar um chope. Ele disse que não daria para gravar lá e pediu para eu avisar ao André que não daria para fazer. Avisei o André, que falou: “Mas e o orçamento?”.  Falei com o Tom que o negócio era a grana. “Então eu pago outro estúdio, mas não quero fazer o disco dessa maneira aqui”, disse o Tom. 

Aí ele foi para Nova York, com os arranjos prontos, e gravou o Matita Perê lá. Eu não fui. Os americanos queriam tirar o meu nome do crédito de produção do disco. Tom não deixou, disse que eu era amigo dele e que eles não iam fazer isso. Fizemos o lançamento do disco no Clube Caiçaras. Carlos Drummond de Andrade, Mário Palmério, autores daquela literatura que o Tom tanto gostava, foram ao lançamento. Matita Perê é um disco que representa a nossa amizade. 

Arnaldo DeSouteiro, jornalista que fez roteiro e textos do especial da TV Globo João & Antonio, que reuniu João Gilberto e Tom Jobim em 1992, e produtor da última gravação do compositor

Quando saiu o disco Terra Brasilis (1980), eu estava começando a escrever em jornais, eu era muito jovem. Escrevi sobre o LP e peguei o catálogo telefônico. Naquele tempo, você achava as pessoas no catálogo. Eu liguei para ele e ele foi muito gentil, pediu para eu levar o artigo na casa dele. Voltei a encontrá-lo anos depois, porque o violonista Carlos Barbosa-Lima, que morava nos EUA, tinha feito um disco com músicas dele e do Gershwin. Nessa época, 1983, Tom estava recluso e não tinha voltado a fazer shows. Carlos era meu amigo, ficava na minha casa e o Tom ia encontrá-lo lá. Produzi reedições de discos dele como o Stone Flower (1971), em 1990. 

Uma das últimas gravações dele, em outubro de 1994, eu que produzi. Foi para o disco Rio Vermelho, da Ithamara Koorax. A gente gravou três músicas e ele gostou de É Preciso Dizer Adeus, sugerida pelo próprio Tom. As outras duas ficaram de fora. Ele disse que estava indo para os Estados Unidos e que, quando voltasse, a gente faria a gravação definitiva dessas outras duas. Só que ele não voltou. Em dezembro, ele morreu. 

Ouça a última gravação de Tom Jobim, com a cantora Ithamara Koorax. Eles gravaram É Preciso Dizer Adeus (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Jobim toca piano na faixa.

 

No estúdio, ele era perfeccionista. Queria que ele tivesse usado um piano Fender Rhodes na gravação, mas ele preferiu o piano acústico. Tom era muito divertido, com umas tiradas sensacionais. Foi uma gravação que eu não queria que acabasse. Gravamos de manhã e depois o levei para almoçar na churrascaria Plataforma. Apesar de ele ser muito educado, era intimidador estar diante de um gigante.

O especial de TV João e Antonio foi um marco, porque eles não tocavam juntos há 30 anos. João Gilberto, com quem trabalhei muito, estava com ótimo humor. Era um tempo que ele estava saindo mais. Foram dois shows: um do João no Rio, com participação do Tom, e um do Tom com a Banda Nova em São Paulo, com o João. Quando fomos fazer a pós-produção para o especial de TV, acabamos tendo que usar apenas uma música da apresentação do Rio. Uma pessoa da produção do Rio esqueceu de conectar o fio de um dos microfones do piano e o fio ficou solto em cima do instrumento. Desse show, só conseguimos salvar Chega de Saudade.  No segundo show, tomamos um cuidado maior. Rezei mais, inclusive.

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