América tem descuidado do jazz, diz Jason Moran A parabólica de Wesseltoft ignora fronteiras

Pianista tido como o melhor da atualidade é estrela do Nublu Jazz Festival, que começa amanhã no Sesc

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2014 | 02h12

Um dos grandes pianistas de jazz da atualidade (muitos acham que é indubitavelmente o melhor), Jason Moran toca com sua banda estradeira, a Bandwagon, no Nublu Jazz Festival, que começa amanhã, no próximo sábado, às 21h, no Sesc Belenzinho. Moran, que ainda não completou 40 anos, transforma rap (Planet Rock, de Afrika Bambaataa) e música erudita (Auf einer Burg, de Schumann) em standards de jazz. O pianista falou por telefone ao Estado.

A última vez que você tocou aqui foi com o quarteto de Charles Lloyd, dois anos atrás. Você tem algum novo disco com seu grupo Bandwagon?

Tenho pronto um disco inteiro com música de Fats Waller (1904-1943), que será lançado em setembro. Mas não foi com a Bandwagon, gravei com um grupo totalmente diferente. Com a Bandwagon tenho mais feito turnês e shows do que gravado. Estou num estágio de minha carreira em que estou mais preocupado em tocar à frente de pessoas do que ficar em um estúdio, fazendo um disco.

Você foi recentemente nomeado Conselheiro do Jazz do Kennedy Center. Acha que o jazz está vivendo uma fase boa, apesar da economia caótica?

Na Grande Depressão dos anos 1930, o jazz era extremamente popular. E essa popularidade vem caindo desde aquela época. Acho que a diferença vai de país para país, sobre qual o papel que a música representa. O Kennedy Center de Washington está determinado a saber como a América pode satisfazer seu desejo por excelência e quais os meios com que se pretende atingir essa excelência. E o jazz é uma expressão musical da excelência da América que alcança o mundo todo. Nós não temos cuidado tanto desse produto quanto deveríamos. Não só do jazz, mas de todas as artes. Tem de haver uma drástica mudança nos Estados Unidos para que possamos manter nossa reputação como exportador de artes criativas.

Vi no seu Facebook que você estava em estúdio gravando com Bill Frisell e Lee Konitz. É para esse álbum com músicas do Fats Waller?

Não. É para outra pessoa, um guitarrista de Copenhague que veio fazer um disco conosco. Eu não tocava com Bill Frisell há muitos anos e não tocava com Lee Konitz há um longo tempo, talvez uns 10 anos. Então foi bom ir para o estúdio de novo com eles para fazer música. Viver em Nova York é isso: sempre estão nos chamando para fazer algo em estúdio, todo mundo é próximo.

O guitarrista Jim Hall, que morreu recentemente, foi um mestre absoluto para muita gente. Foi para você também?

Ele foi a ponte entre o jeito tradicional de tocar a guitarra e a modernidade. O jeito que ele soava, o uso dos intervalos, o jeito que ele colocava as bandas para tocar, tudo isso era representativo do modernismo no que ele tinha de melhor.

Lee Konitz está com quase 90 anos agora. Como foi gravar com ele? Está bem ainda?

Está ótimo. Ninguém no mundo soa como Lee Konitz. Sabe, há algo tão puro no jeito como ele toca as melodias, ou mesmo quando ele toca apenas uma nota. Há uns dois anos, eu estava na Austrália e Lee Konitz apareceu, veio conversar comigo. Ele tocaria na noite seguinte. Mas na manhã seguinte, algo aconteceu com o cérebro dele, ele foi internado às pressas para uma cirurgia. Assustou todo mundo. Fomos ao hospital para vê-lo, parecia que nunca se recuperaria. Então, é admirável que continue tocando e repartindo sua música com o mundo todo.

A parabólica de Wesseltoft ignora fronteiras

O pianista e compositor norueguês Bugge Wesseltoft tem um razoável currículo de parcerias com brasileiros. Tocou no disco Sol de Oslo, de Gilberto Gil. Gravou também com Marlui Miranda e outros. É amigo de Rodolfo Stroeter. Expoente da cena do nu jazz, que surgiu nos anos 1990, ele abre o Nublu Jazz Festival amanhã com o show Bugge'n Friends, na qual terá a participação do trompetista brasileiro Guizado (que já tocou com Nação Zumbi e Karina Buhr, entre outros).

"Acredito na música como uma linguagem global", disse Wesseltoft ao 'Estado'. Ele acabou de lançar o disco OK World, no qual grava com seis músicos de três continentes. Sua praia é um mix entre eletrônico e acústico. Não faz distinção entre os instrumentos. "Até aos 25 anos, eu não tinha um piano, tinha computadores", afirmou. 

NUBLU JAZZ FESTIVAL
Sesc Ribeirão Preto. Rua
Tibiriçá, 50, R. Preto, (16) 3977 4477. 4ª a 6ª, 19h30. R$ 30. 
Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. 
5ª a sáb., 21h30. R$ 40. 

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