Altamiro Carrilho faz show no Municipal

O flautista Altamiro Carrilho toca nesta quarta-feira no Teatro Municipal. Faz o show de encerramento da turnê Altamiro Carrilho in Concert, que já visitou o Teatro Guaíra, em Curitiba, o João Caetano, no Rio, o Palácio das Artes em Belo Horizonte, e o Teatro do Sesi, em Porto Alegre.O grande músico leva à cena - como nas 14 outras récitas deste In Concert - três convidados muito especiais: o pianista e compositor João Donato, a cantora Carmina Juarez e o maestro Júlio Medaglia.Seus clássicos, que são os clássicos do choro - Altamiro é a encarnação do choro -, não faltarão, no roteiro: Brasileirinho, de Valdir Azevedo, Urubu Malandro, de Pixinguinha, Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, entre muitas músicas que a platéia exige invariavelmente ouvir do mestre.Jubileu - Mas o mestre anda pensando em novidades. "Quero entrar em 2002 com músicas novas no repertório", conta. "E vou mostrar um pouco disso no show" - mas ele não quer antecipar que números seriam. Fala de um só - o dobrado Jubileu, de Anacleto de Medeiros."Anacleto era regente da banda do Corpo de Bombeiros do Rio", lembra. "Compôs esse dobrado para o aniversário de 25 anos, o jubileu, da banda", prossegue (outra versão diz que a música foi encomendada para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1986). "Quando se pensa em dobrados, imagina-se música marcial, mais dura, feita para marcha", avalia. "Mas a composição do Anacleto é de extrema sofisticação, de estrutura muito rica, de melodia belíssima", diz.Jubileu tem como abertura a frase executada pelo clarim que, para os bombeiros, é aviso de incêndio. "Anacleto vai trabalhando a melodia de modo a inserir essa frase em trechos diversos", explica Altamiro. "Vai mesclando o toque com a evolução melódica do dobrado", conta.E é uma boa notícia que Altamiro toque Anacleto, um autor fundamental na evolução da música urbana brasileira, infelizmente pouco conhecido, pouquíssimo gravado. Nascido na Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, filho de escrava liberta, formou-se em música pelo conservatório, compôs proficuamente, inovou como arranjador e morreu muito novo, aos 41 anos, em plena maturidade como compositor, regente e arranjador.De suas obras, a única que sobreviveu no século 20 foi o xote Iara (Rasga o Coração), do fim dos anos 1800, que depois ganharia letra de Catulo da Paixão Cearense e cuja melodia seria aproveitada por Villa-Lobos no tema do Choros n.º 10. Tom Jobim menciona esse Choros, ao longo da obra, como também o fez, mais recetemente, o compositor Guinga.O interesse de Altamiro Carrilho por Anacleto sempre existiu, mas ganhou novo alento quando, de três anos para cá, seu sobrinho, o violonista Maurício Carrilho, começou um trabalho de pesquisa sobre a música carioca do século 19 e do início do seguinte. Maurício recuperou partituras, orquestrações composições inéditas de diversos autores - são outras que estarão, em breve, no repertório do flautista. Inquietações de um músico extraordinário, sempre em busca de aperfeiçoamento, de novos desafios.Nascido em Santo Antônio de Pádua, no interior do Rio de Janeiro, ele vai completar, neste mês, 77 anos. Começou a tocar, ainda menino, no interior, numa flautinha de bambu. Começou a estudar, mas o pai morreu. Precisou trabalhar quando tinha 9 anos. Ao mesmo tempo, tocava tarol na Banda Lira de Áriom - a maioria dos integrantes era de parentes seus.Mudou-se para Niterói, quando tinha 16 anos, estudou música à noite, começou a freqüentar os programas de rádio de Benedito Lacerda e Dante Santoro, flautistas. Tirou primeiro lugar no programa de calouros comandado por Ari Barroso, na Rádio Nacional - um feito na época muito respeitado -, começou a gravar como acompanhante, participou de conjuntos, foi para o rádio e, em 1949, gravou seu primeiro disco.Substituiu Benedito Lacerda do célebre Regional do Canhoto, acompanhando os grandes do tempo - Sílvio Caldas, Vicente Celestino, Orlando Silva -, fez cinema, criou, nos anos 50, a Bandinha do Altamiro Carrilho (na bandinha, tocava também flautim), ganhou o mundo e foi considerado uma das maiores expressões do instrumento por gente como o francês Jean-Pierre Rampal.Sua técnica é exuberante, sua imaginação musical fertilíssima, sua capacidade de improvisação inesgotável. Altamiro é - não há exagero - um dos grandes instrumentistas dos tempos modernos.É curioso que divida o palco, no show de amanhã, com o pianista João Donato, outro músico de gênio, mas de temperamento musical exatamente inverso ao seu. Donato é econômico, tocando ou compondo; parece guiar-se pelo "menos é mais". Poucas notas intervalos curtos. Altamiro é grandiloqüente, efusivo; explora toda a extensão do instrumento, pula de notas gravíssimas para outras agudíssimas, abre o fraseado em escalas velozes, examina um tema fazendo citações de outros. Pois é, o encontro deles dá certo.É assim, por exemplo, no Serenata n.º 40, de Mozart, que tem uma frase parecida com o tema do Tico-Tico no Fubá - Altamiro adora explorar esses achados. Em geral, achados, mesmo, coisas percebidas na hora da execução.Dividindo - Mas haverá outros artistas em cena. Altamiro abre espaço para eles. Gostaria de deixar Donato tocar sozinho. "Só que ele me chama, não quer ficar sem mim, no palco", diz o flautista. João vai tocar alguns de seus sucessos - A Paz (que tem letra de Gilberto Gil), Minha Saudade (letra de João Gilberto). Altamiro fará comentários, à flauta.Carmina Juarez vai cantar Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, Carinhoso, de Pixinguinha, e a valsa Primeiro Amor, de Patápio Silva - também merecendo comentários musicais do anfitrião. Os outros músicos em cena serão Robert Saliba (percussão), Maurício Verde (cavaquinho) e Pedro Bastos (violão de sete cordas).Serviço - Altamiro Carrilho. Participação de João Donato e Carmina Juarez. Amanhã (05), às 21 horas. De R$ 20,00 a R$ 60 00; R$ 10,00 a R$ 30,00 (estudantes). Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698. Patrocínio: Serasa

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