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Altamiro Carrilho deixou sua marca em 70 anos de música popular

Flautista se apresentou em mais de 48 países, lançou mais de 112 discos e compôs cerca de 200 músicas

O Estado de S. Paulo,

15 de agosto de 2012 | 14h55

Disseram dele que se sentia tão à vontade numa schottische de Pixinguinha como num concerto de Mozart. De Benedito Lacerda, tirou um tanto do estilo. Do duplo staccato de Pixinguinha veio o ritmo, a brasilidade. De Dante Santoro, a capacidade de fundir duas flautas em uma.

O francês Jean Pierre Rampal disse certa vez que, para ele, existiam flautistas e existia Altamiro Carrilho. Vindo de uma tradição de flautistas brasileiros que começou no início do século 20, com Patápio Silva, Carrilho fez a aproximação entre a arte dos chorões nacionais com a obra de Bach, Mozart, Vivaldi, Beethoven e Chopin. Nunca torceu o nariz para o popular, entretanto. "Basta dizer que é minha aquela flautinha que aparece na música Detalhes, de Roberto Carlos."

O flautista se apresentou em mais de 48 países, lançou mais de 112 discos e compôs cerca de 200 músicas. Entre 2009 e 2010, comemorou 68 anos de carreira com o lançamento de três discos, quatro DVDs e um longa-metragem. Acompanhou quase toda a galáxia da MPB com sua flauta: Francisco Alves, Orlando Silva, Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Bethânia, Linda e Dircinha Batista, Caubi Peixoto, entre muitos outros.

Menino ainda, em sua cidade natal, Santo Antônio de Pádua (RJ), tocava uma flautinha de bambu e integrava a Banda Lira de Árion (cujos integrantes eram todos da família), tocando tarol (um tipo de caixa de percussão).

Em 1940, mudou-se para Niterói, onde se empregou em uma farmácia. Um dia, Moreira da Silva foi fazer um show ali e mandou procurarem por um flautista. Lembraram do menino que trabalhava na farmácia: Altamiro, então com uns 15 anos. Foi com Moreira que gravou pela primeira vez em disco, pela Odeon.

O flautista Benedito Lacerda interessou-se pelo talentoso garoto, e lhe ensinou alguns dos seus segredos: técnica, ritmos, mas também uma iniciação ao mundo dos maxixes, lundus, choros, baiões, valsas. Iniciou-se no regional de César Moreno e no de Canhoto, até organizar o seu próprio. Em 1949, gravou seu primeiro choro, Flauteando na Chacrinha (que, contam, inspiraria o nome do famoso apresentador da TV, Chacrinha).

Em 1951, já tendo acompanhado em gravações, na Rádio Mayrink Veiga, astros como Vicente Celestino, Sílvio Caldas e outros, apareceu no filme Mulher do Diabo, de Milo Marbisch. Ainda nos anos 1950, desfrutou popularidade com o programa Em Tempo de Música, na TV Tupi. Nos anos 1960, internacionalizou a carreira, tocando na Inglaterra (onde gravou para a BBC), Alemanha, Líbano, Egito. Chegou a ficar um ano no México.

A carreira de Altamiro alternou fases glamourosas com outras revoltosas. Em 1955, quando seu regional ganhou a TV (a única vez em que o campeão de audiência foi um programa de música brasileira), viveu a glória. Depois, houve um período de desilusão com os rumos da música. Quando o iê-iê-iê e as guitarras elétricas dominaram o cenário, ele chegou a vender 12 de suas 18 flautas e destruir todos os seus troféus. "De 1962 a 1971, o músico brasileiro ficou totalmente relegado. Como muitos dos meus colegas que chegaram a ser até chofer de táxi, eu também procurei emprego numa corretora. Só não comecei o trabalho porque fui desestimulado pelo próprio gerente", contaria, em 1975.

Em 1955, ao lançar um dos seus discos mais festejados, Altamiro Carrilho e Sua Bandinha na TV (Copacabana Discos), ele gravou clássicos como Fita Amarela, Tico-Tico no Fubá, Dorinha Meu Amor e Vassourinha, entre outros. E escreveu, nas notas do disco: "E confesso que toquei essas músicas mais de ouvido, mais de memória do que por música, propriamente. Cada uma delas era uma saudade que sonorizava o meu coração, que me distanciava do dever de gravar para o prazer de ouvir. Vi-me dançando com minha namorada ao lado de uma retreta do interior. Vi meu mestre corrigindo erros numa partitura minha".

Resistiu sempre ao rock. "Somos formiguinhas lutando contra elefantes. Há muito dinheiro do lado de lá, mas há mais talento do lado de cá", dizia.

 

REPERCUSSÃO

Zuza Homem de Mello

Crítico e escritor

"Para mim, ele foi o mais exímio, o mais virtuoso de todos os flautistas brasileiros. Dominava todos os recursos, as notas quebradas, interrompidas. Aquilo para ele era um brinquedo, não conhecia dificuldades."

Hermeto Pascoal

Instrumentista

"Quando eu estava começando com o Quarteto Novo, passei com a flauta desajeitada na boca. Ele me chamou e disse: ‘Mas menino, não é assim não, você está tocando todo torto.’ E me disse como eu deveria tocar. Altamiro não morreu. O carro em que ele estava apenas deu uma pifadinha e ele foi para o mundo dele. Um dia a gente se encontra."

Amilton Godoy

Pianista

"Para mim, Altamiro foi o flautista mais importante da música brasileira. Ele conseguiu ser respeitado pelos músicos e pelo público. Era um showman, não gostava de apenas acompanhar. No fim de seus shows, tinha dificuldade para sair do palco. A plateia o chamava de volta várias vezes."

Mauro Senise

Flautista

"Ele era a própria flauta. Toquei com ele no início da minha carreira, minha professora me levava para ouvi-lo. Foi uma grande inspiração. É um símbolo. O fôlego, interminável, mesmo em músicas difíceis. Gostava de mostrar aquelas coisas que ninguém mais conseguia fazer."

Gilson Peranzzetta

Pianista

"A flauta era parte dele, então tudo ele fazia parecer que era muito fácil de tocar. E era um melodista incrível. Tinha sempre algo engraçado para falar, era o rei do trocadilho. Vou imitá-lo: ‘Altamiro vai fazer muita flauta’."

 

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