Acervo DJ Hum
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'Alquimia', o novo trabalho do DJ Hum, resgata a cultura dos bailes

Gravado em estúdio doméstico durante a pandemia, disco mistura três décadas de discotecagem

Carlos Eduardo Oliveira, Especial para o Estadão

22 de dezembro de 2020 | 05h00

Desde que Humberto Martins Arruda emergiu das ruas embarreadas de Ferraz de Vasconcelos para se tornar o DJ Hum, já se vão mais de três décadas de carreira e quinze álbuns de estúdio à cata, como já definiu Marcelo D2, do beat definitivo. Com o recém-lançado Alquimia, seu novo trabalho, ele renova o fôlego rumo a essa ascese nas pick-ups. Pioneiro do hip-hop, nos anos 1980 DJ Hum fez da estação São Bento do metrô paulistano seu ABC musical para a parceria épica com o rapper Thaíde, com quem construiu vigorosa e prolífica trajetória até o rompimento em 2001. Paralelamente, escreveu um não menos prolífico cartel de produções, composições, participações e remixes para nomes como Milton Nascimento, Roberto Carlos, Seu Jorge, Fernanda Abreu, Jair Rodrigues, Jota Quest, Anitta, o próprio D2 – a lista é grande. 

Gravado em estúdio doméstico durante a pandemia, Alquimia revela uma parabólica inquieta que aponta, ao longo de dez faixas, para um ponto futuro do hip hop instrumental underground. Soul, R&B, lo-fi (o hip hop em compasso mais lentos), bossa nova, jazz hip-hop, samba rock, está tudo lá – sobrou até para um review de All Night Long, hit chacundum do quarteto ianque Mary Jane Girls.

Entre loops e scratchs, Hum equilibrou um pé na organicidade e outro nos antigos bailes black, sua devoção e culto. “Eu tentei agregar, de forma instrumental, vários elementos da cultura raiz desses bailes que frequentava. É a mistura de três décadas e meia de discotecagem, para inspirar as pessoas a compor sua própria trilha sonora.”

Já há algum tempo, aliás, spoilers do álbum punham pra dançar os ouvintes da Festa do DJ Hum, seu programa dos sábados na 105 FM, no ar desde 1999 (e sério candidato a melhor black music no dial brasileiro). Vinil em seu formato físico, Alquimia tem a lavra da Humbatuque Records, selo do músico (que o mixou e masterizou) e da produtora executiva Luciana “Lu Disco Show” Suman. 

Qual o seu conceito de hip hop instrumental? 

São batidas que saíram dos bailes de música negra nas periferias de São Paulo, minha escola. É o espírito da cultura de baile no estúdio. Essa é a alquimia a que me refiro. Um DJ de casas noturnas tem que regar o passado, para que as novas gerações colham o que não tiveram a oportunidade de conhecer lá atrás. O disco resgata a cultura de bailes para quem curtiu relembrar, e para quem é mais novo se admirar, tipo, “uau, que beat louco”. Nós, os DJs, somos os agricultores desse cultivo, para os jovens não pensarem que o rap moderno nasceu no Spotify. 

Em que medida sentiu a necessidade de não se distanciar do orgânico em um disco de DJ? 

Sim, o disco tem essa linguagem bem orgânica. Onde a música pedia, fui orgânico. À exceção dos metais, toquei todos os instrumentos. Há essa mistura, para representar diferentes gerações. 

Quais as influências musicais de início de carreira que até hoje são perenes em sua música? 

Inquestionavelmente, James Brown. Simplesmente o maior de todos. Foi o primeiro disco que eu ganhei, de um tio, após ir a uma matinê, aos 11 ou 12 anos. E também DJs como Grandmaster Flash, Jazzy Jeff. Jorge Benjor e Tim Maia são fenomenais e presentes até hoje no que eu gosto de fazer e tocar. E por gostar muito dos instrumentais da cultura de baile, incluo ainda o Ed Lincoln, precursor do sambalanço. A música dele sempre andou comigo.

No Brasil, o rap nasceu e conquistou espaço sob o signo da mensagem social, do protesto. Com o uníssono atual contra o racismo e vários outros recortes de desigualdade, o quanto de crédito cabe a ele?

Na real, o que acontece hoje é reflexo do que já escrevíamos nos anos 80 e 90, principalmente nos 90, época que surgiram as ONGs, a militância, a busca pela identidade racial e social. Essa responsabilidade cresceu com a gente, porque na época, com dizia Gil Scott-Heron, a revolução não era televisionada. Naquele momento, os discos de rap eram puro engajamento político-social, e lançaram grandes rappers, atualmente na casa dos 50 anos, que modificaram uma geração. Foi uma luta travada num campo desigual, perdemos muita gente, mas hoje muito mais dos nossos vão à faculdade, dominam centros de informação, dão palestras. Hoje as afrontas são facilmente identificáveis e propagadas, e a responsabilidade está no cidadão, na cidadania. O rap não é mais tão engajado, talvez porque muitos objetivos já foram conquistados. Mas lá atrás, ele era a única ferramenta que tínhamos. 

E o rap virou mainstream, presente na TV, nas plataformas, desfiles de moda, campanhas de multinacionais. 

No fundo, era o que a gente queria. Que o nosso povo se desse bem. Sem capital, sem verba, não se consegue fazer a mudança. Um ditado antigo diz que sem dinheiro não há armas, e sem armas, não há revolução. Todos nós queríamos o sucesso, o rap precisava virar mainstream, principalmente para as novas gerações, que veem o mundo diferente. E se não tivesse virado, com todas as tecnologias atuais, teria sido engolido, como muitos outros gêneros o foram no passado. Vários artistas da minha geração tiveram músicas em grandes campanhas de marketing. O detalhe é que não fomos atrás de nada, as empresas é que nos procuraram. E hoje, o hip-hop moderno descobriu seu caminho, os artistas já se sentem mainstream. Sabem como impulsionar a carreira. 

Alguma chance de você e Thaíde trabalharem juntos novamente? Como ficou a relação da dupla? 

No momento não há possibilidade, estou 100% focado no meu trabalho. Nossa relação é a relação de uma banda quando acaba, você fica anos e anos praticamente sem se falar. Temos uma história maravilhosa de conquistas que ficou no passado. Sempre procuro honrar essa nossa memória, com posts e atualizações, mas tenho que seguir com minha carreira. Mas há muito material inédito nosso que ainda vai sair, então, é como se ainda estivéssemos juntos.

Memórias do DJ Hum

  • Hip Hop Cultura de Rua (1988) – Thaíde & DJ Hum 

“Essa coletânea da gravadora Eldorado foi pioneira em apresentar ao Brasil pela primeira vez a música rap e toda a cultura hip hop. Foi o Wagner Garcia, que era o diretor artístico, precocemente falecido, quem deu a oportunidade de um disco a uma galera que até então só ficava no metrô São Bento fazendo rimas e dançando break. Tivemos duas faixas, Corpo Fechado e Homens da Lei.”

  • Pergunte A Quem Conhece (1989) – Thaíde & DJ Hum

“Nosso primeiro álbum solo. Quando entramos em estúdio, ainda não entendíamos o que era gravar um disco. Cada dia era uma descoberta, vínhamos dos bailes da periferia, nem equipamentos conhecíamos. Relançamos Corpo Fechado, que puxou o disco, pusemos mais colagens de scratch e uma banda, vários músicos participaram das sessões. A produção foi do Nasi e do André Jung, do Ira!, fundamentais no processo. Foi o disco que nos possibilitou a passar a viver da nossa arte.”

  • Preste Atenção (1996) – Thaíde & DJ Hum 

É o sexto álbum. Após o segundo disco, Hip Hop na Veia, eu assumo a produção dos nossos trabalhos. Tivemos várias participações especiais, um time grande que tinha Lino Krizz, Paula Lima e muitos outros. Eu e o Thaíde desenvolvemos todos os temas e letras. Malandragem Dá Um Tempo e principalmente Sr. Tempo Bom, com um clipe icônico, estouraram. É um disco bem maduro. Olhando hoje, vejo que ainda é muito atual e contemporâneo.” 

  • Assim Caminha Humanidade (2000) – Thaíde & DJ Hum

“Um trabalho ousado, bem à frente do que se fazia naquele momento. Até porque adentramos o território do jazz hip-hop, que era algo novo em termos de Brasil. Conceitualmente, desenvolvermos algo futurístico, em consonância com a virada do século: os novos sons, o novo tempo, as mudanças, a esperança. Para a produção, juntei timbres e músicas dos anos 60 e 70 a nuances de música eletrônica, e deu muito certo. Os destaques foram Ninguém Sabe e Apresento Meu Amigo, essa cantada pelo Thaíde e pelo Sombra MC, do grupo SNJ. Ambas tiveram execução pesada nas rádios.”

  • Um Passo À Frente (2005) – Motirô 

“Nessa época, com o mercado se abrindo para a black music, eu era residente de várias casas noturnas e fazia turnês como DJ. Em 2003 surgiu a ideia do single Senhorita, com o Lino Krizz e o Cabal, mas nenhuma gravadora apostou. Dois anos depois, a música estoura geral, sai até na Inglaterra e a EMI nos chama. Eu tinha várias outras músicas, que fecharam o álbum do Motirô já como grupo, com banda completa e eu usando a pick-up como instrumento. Com Um Passo À Frente, ganhamos o Prêmio Multishow daquele ano.” 

  • DJ Hum e o Expresso do Groove (2016) – DJ Hum 

“Com o fim do Motirô, me envolvi em inúmeros trabalhos de terceiros e passei anos sem lançar nada. Então, estava na hora. Gravei no home studio usando técnicas de produção analógicas e digitais, e lancei pelo meu selo Humbatuque Records. Sem pressão de gravadora, no meu tempo, do meu jeito. Tem samba rock, samba jazz, acid jazz, charme, R&B, hip-hop tradicional. Além de DJ, aqui eu começo a ser instrumentista, à exceção dos metais e guitarra, toquei todos os instrumentos. Saiu em CD e vinil e até hoje é um disco cultuado e procurado. O volume dois deve sair em 2021.” 

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