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Allen Toussaint se apresenta em São Paulo

Um dos mais notáveis músicos de New Orleans é atração de festival

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2014 | 03h00

Já tem 56 anos desde que o pianista (e também arranjador, compositor e cantor) Allen Toussaint lançou seu primeiro disco, e desde então sua posição como uma espécie de mentor de diferentes gerações de astros da música de New Orleans (celeiro da música americana) cresceu, se consolidou e hoje é incontestável.

Além de ter sido mestre de outros mestres, como Irma Thomas, Cassandra Wilson e Aaron Neville (dos Neville Brothers), ele ultrapassou as fronteiras regionais: sua música foi gravada por astros como Rolling Stones, Robert Plant, The Who, Allison Krauss, Paul Weller, Bonnie Raitt, Sugarbabes e Glen Campbell. Foi indicado diversas vezes para o Grammy, uma delas pelo disco The River In Reverse, feito em colaboração com o ex-punk Elvis Costello, e recebeu um prêmio pela totalidade da carreira.

Condecorado em 2012 pelo presidente Obama com a Medalha Nacional de Artes em seu País, aos 76 anos, ele toca hoje pela primeira vez em São Paulo. Expoente do R&B sulista, seu repertório abarca alguns dos maiores clássicos daquela tradição, como Iko Iko, Big Chief, City of New Orleans, I Could Eat Crawfish Everyday, Mr. Mardi Gras e Ride Your Pony.

Seu papel no desenvolvimento do rock’n’roll é também muito importante, considerando-se que ele iniciou sua mistura de ritmos justamente quando Fats Domino, outro pioneiro, deixava o centro do furacão do rock. E algumas canções ultradançáveis desse pioneirismo, como Working in the Coal Mine, Mother-in-Law e Southern Nights (três composições de Toussaint), poderão estar no repertório.

A banda que o acompanha tem seu filho, Clarence "Reginald" Toussaint, na percussão, além de Herman LeBeaux Jr (bateria), Roland Guerin (baixo), Renard Poché (guitarra, que também costuma acompanhar Irma Thomas, Peter Gabriel, Harry Connick Jr., Herbie Hancock, entre outros) e Gary Brown (sax).

A atuação de Toussaint como embaixador de New Orleans no processo de reconstrução da cidade, em 2005, após a passagem do furacão Katrina, foi fundamental e é elogiada até hoje. Ele articulou um evento beneficente no Madison Square Garden, em Nova York, convocando artistas como Jimmy Buffett, Elvis Costello, Lenny Kravitz, Cyril Neville, Art Neville, Paul Simon e Irma Thomas.

Ele mesmo perdeu tudo naquele desastre natural: a água levou seu piano, seu sintetizador, suas notações musicais e gravações inéditas. "Não gosto de flertar com a dor", ele disse. "O que está perdido, está perdido." Toussaint disse considerar que "as coisas foram reconstruídas de uma forma melhor do que eram antes".

Ele cresceu numa área pobre da cidade, Gert Town, mas que ele sempre definiu como "rica em espírito", o que facilitou as coisas em sua arte. Nunca lamentou sua infância pobre. Fez discos fundamentais. Em 2009, Toussaint lançou The Bright Mississippi (Warner Music), quebrando uma ausência discográfica de 10 anos. O título vinha de uma composição de Louis Armstrong. Toussaint gravou clássicos de jazz e blues compostos por conterrâneos famosos, como Louis Armstrong, Sidney Bechet, Jelly Roll Morton, Billy Strayhorn, entre outros.

Em geral, tem grande habilidade em reunir forças díspares num mesmo esforço. O time daquele disco tinha, entre outros, o trompetista Nicholas Payton, o saxofonista Joshua Redman, o pianista Brad Mehldau, o guitarrista Marc Ribot (parceiro de Tom Waits e Elvis Costello), o baixista David Piltch (sideman de k.d. lang), o clarinetista Don Byron e o baterista Jay Bellerose (que toca com Robert Plant e Alison Krauss).

Toussaint cresceu entre músicos de R&B, acostumou-se a brincar com o funk e o rock, mas também sabe dialogar com a novíssima tradição do jazz. Está sempre tutelando os novos talentos. Não é comum, mas ele também canta muito. Na penúltima faixa de Bright Mississippi, Long, Long Journey, de Leonard Feather, Toussaint mostra sua força também como cantor.

"Allen tem sido um herói musical para mim durante todos esses anos", disse, ao passar por São Paulo, o também pianista, ator e cantor Hugh Laurie, o Dr. House. A habilidade do mestre é reverenciada. Há três dias, Toussaint tuitou que estava chegando para "sentir a pulsação do Brasil e trazer algum sabor de New Orleans". É hoje e é de graça.

BOURBON STREET FEST

Parque do Ibirapuera. Sáb., Allen Toussaint, às 17h30. Inf.: 5095-6100. Grátis 

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