Cristiana Granato/Divulgação
Cristiana Granato/Divulgação

Alice Caymmi reina absoluta no palco e no disco

Cantora, que carrega o sobrenome Caymmi, segue com turnê pelo País

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 19h00

Rio - Um céu cinzento e relampejante. Diante dele, Alice Caymmi surge toda de preto e de rosto coberto, uma orixá guerreira que canta Iansã (Caetano Veloso/Gilberto Gil) como prenúncio de um show tempestuoso. Era a estreia da turnê nacional de Rainha dos Raios, o primeiro espetáculo da cantora carioca de 25 anos, da terceira geração de artistas da família Caymmi, realizado na quarta, 15, no Rio. O público que lotou a Sala Cecília Meireles, viu tudo, menos insegurança. 

“A gente vem rompendo barreiras, com o pé na porta mesmo, com passos bem arriscados. Sempre vamos além, damos um passo que pode ser sempre maior do que deveria, mas, assim, conseguimos as coisas. A gente tem estofo e substância para isso, ainda bem. Funciona”, disse a cantora ao Estado, ao fim do show. A fala no plural se refere à equipe, encabeçada por Paulo Borges, diretor da São Paulo Fashion Week.

Foi na semana de moda, na edição do ano passado, que Borges a conheceu. Alice, cujo timbre entrega o DNA Caymmi, cantou em um desfile duas faixas do CD Rainha dos Raios: Homem, de Caetano Veloso, e I Feel Love, de Donna Summer. “Vi uma menina de um talento incrível, extremamente corajosa, que não está presa a nenhum estereótipo do que você pode fazer num palco. Na música brasileira, ela está pisando onde ninguém mais está”, disse ele.

Até dezembro, a turnê passará por São Paulo, Nordeste, Sul e pelo Rock in Rio (Alice se apresentará com o veterano orquestrador Eumir Deodato). O título do show foi tirado da música que Gil e Caetano fizeram em 1973, 17 anos antes de Alice, neta de Dorival, filha de Danilo e sobrinha de Nana e Dori, nascer. Com fôlego, ela apresenta quase todo o CD, que saiu no ano passado e lhe rendeu duas indicações no último Prêmio da Música Brasileira (melhor cantora e melhor CD na abrangente categoria pop/rock/reggae/hip-hop/funk).

Como Vês (Bruno Di Lullo/Domenico Lancellotti), música que puxou o CD, a balada Meu Recado (sua com Michael Sullivan), o hino da fossa de Maysa Meu Mundo Caiu, a autoral Antes de Tudo, o funk melody transmutado Princesa (MC Marcinho), o clássico brega Sou Rebelde, a sequência, toda com alta dose de dramaticidade, mostra o ecletismo de Alice. Ela é acompanhada por Lucas Vasconcellos, à guitarra e ao laptop, de onde saem os instrumentos pré-gravados. 

O show é o mesmo gravado em DVD em dezembro, em São Paulo. Formada em música e teatro, Alice, que lançou o primeiro CD em 2012, interpreta versos de Bang Bang (My Baby Shot me Down), sucesso de Cher dos anos 1960, e Joga Fora, um dos hits de Sandra de Sá na década de 1980. Sensualiza com dançarinos, rebola e houve gritos de aprovação entusiasmada. Alice não interage com o público, talvez para não quebrar a teatralidade da apresentação.

A plateia, em grande parte, nunca havia pisado na Sala Cecilia Meireles, casa da música erudita recém-reformada pelo Estado. A opção por um teatro, e não uma casa de show, teve como intenção destacar a potência interpretativa de Alice, Paulo Borges conta. O videocenário exibe imagens ora prosaicas, ora oníricas. Os figurinos mostram o lado sagrado, diva, bicho, homem, de uma artista ainda em busca de uma linguagem. O apelo visual é para ser tão forte quanto o musical, disse Alice.

“O que eu estou tentando fazer é absorver o que já aconteceu e dar minha leitura. É o grande desafio desse espetáculo e do meu trabalho de uma forma geral”, ela explica, ao responder sobre as relações entre Rainha dos Raios, Dorivália, show do ano passado em que recriava o repertório do avô, por ocasião de seu centenário, e o diálogo com a tropicalismo. 

“Alice sempre teve personalidade forte. O arrojo é algo que vem desde o meu pai”, disse Danilo Caymmi, sem disfarçar o orgulho pelo burburinho em torno da filha. Com o destemor característico da idade, Alice não sente o sobrenome pesar. “Eu esqueço (dele)”, garante. “Só lembro quando alguém fala. Os mais jovens nem sabem quem é”, acrescenta.


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