MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
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Algumas verdades saltam diante desses discos do Paralamas

Box com toda a discografia de 30 anos da banda foi lançado recentemente

Ricardo Alexandre, Especial para O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2015 | 03h00

Parafraseando Gilberto Gil, há muitas formas de cravar o nome de uma banda ou artista na história do rock, e os Paralamas do Sucesso escolheram todas. Se você medir pelo impacto instrumental em cima de um palco, eles estarão ali. Se medirem pelo aspecto “sonhático”, eles estarão no Circo Voador, na Fluminense FM, no primeiro Rock in Rio, regando a sementinha do lendário rock brasileiro dos anos 1980. Se for pela influência exercida, estarão de novo, soprando no ouvido de toda a geração dos anos 1990, de Skank a’O Rappa, da Nação Zumbi aos Raimundos. Pela quantidade de hits, pelos álbuns clássicos, pelo desbravamento do mercado latino. Foram um dos primeiros a new-wavisar o pop nacional e os primeiros a problematizar tanta derivação.

Diante disso, e olhando em retrospecto no panorama que a caixa 1983-2015 propõe, saltam algumas verdades diante dos 12 álbuns de estúdio, os seis ao vivo e as duas coletâneas de raridades. Em primeiro lugar, que o fio condutor de hits tão disparatados quanto Meu erro, Alagados ou Pólvora ou Soldado da paz não é a escola ska-Police-Two Tone como achávamos em 1984. O caso dos Paralamas é o de um power-trio daqueles clássicos, só que profundamente interessado no mundo a sua volta, que cruzou 30 anos assumindo e/ou refletindo sua(s) época(s) com muita propriedade e elegância e, às vezes, brilhantismo mesmo.

Talvez por isso, espante a “barrigada” conceitual ocorrida no início dos anos 1990, quando, depois de posicionar todas as cartas do pop brasileiro daquela década, os Paralamas foram gravar em Londres, viraram “adultos”, invernais, sofisticados, e miraram no mercado latino, como que abdicando (ou se alienando) da liderança natural que poderiam exercer em uma geração que unia brasilidade e globalização, como eles haviam profetizado em 1986. Perceberam o vacilo tarde demais, 1995, com Uma brasileira, e posaram como se tivesse cabimento que fossem influenciados pelo Skank, Marisa Monte ou Carlinhos Brown, todos filhos conceituais deles mesmos. De toda forma, isolados da época em que foram concebidos, discos como Os Grãos (apesar de flagrantemente confuso) e Severino funcionam muito bem, dentro de uma linha evolutiva bastante razoável.

Desse ponto de vista, estritamente musical, o acidente de 2001, que colocou Herbert em uma cadeira de rodas, foi uma daquelas vírgulas indecifráveis da história do rock brasileiro. No meio de mais uma reinvenção (desta vez em direção ao som mais cru baixo-guitarra-bateria), no início da derrocada do formato habitual do mercado da música, os Paralamas abriram uma fase que os colocou em um lugar onde nunca estiveram antes: pairando por sobre todo o resto do pop brasileiro, num trajeto que, dali em diante, e provavelmente dali para sempre, obedeceria suas próprias regras.

Autocentrismo não combina em nada com os 32 anos de música gravada pelos Paralamas. Uma banda que contou sua história falando com estranhos na fila do ônibus – uma história que resume muito bem os caminhos do próprio pop-rock brasileiro, com suas idiossincrasias, suas muitas virtudes e suas muitas perguntas não respondidas.

RICARDO ALEXANDRE É JORNALISTA E AUTOR DO LIVRO ‘CHEGUEI BEM A TEMPO DE VER O PALCO DESABAR’, ENTRE OUTROS 

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