Alguém viu o João Gilberto por aí?

Fomos até a Rua Carlos Góis, no Leblon, tocar a campainha do apartamento de João Gilberto. Afinal, é ele que vive dizendo ‘chega de saudade’. João não atende, mas as pessoas que o cercam estão por toda a parte e, uma a uma, traçam seu perfil

Gilberto Amendola,

26 de abril de 2008 | 19h53

Em 2002, Tião Alves ainda fazia entregas para o restaurante Degrau, famoso no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Um dia, o dono do estabelecimento chamou-o de canto e, em tom grave, pediu para que ele cumprisse uma verdadeira missão: "levar um bacalhau para um cliente muito especial e reservado." Alves achou aquilo tudo esquisito demais. De qualquer forma, não ousou questionar a ordem. Alves seguiu para o prédio Jardim Leblon, na Rua Carlos Góis. Logo de cara, percebeu que o edifício não tinha nada de especial - era até bem simples. Ainda com as recomendações do patrão na cabeça, tocou o interfone e falou com o porteiro. "É uma entrega do Restaurante Degrau para o apartamento do oitavo andar." Normalmente, os moradores dos outros andares precisam descer para pegar suas encomendas, mas aquele misterioso habitante tem o privilégio de esperar em seu apartamento. Contrariando uma norma básica de segurança de qualquer edifício fuleiro, o entregador é quem precisa subir para levar os pedidos. Alves só precisou tocar a campainha uma vez. Logo, a identidade daquele cliente foi revelada: era o calado, inacessível e figurão da Bossa Nova, João Gilberto. O entregador conhecia a fama do músico e teve medo. O que aconteceu em seguida é o próprio Alves quem vai narrar. "Ele foi muito simpático. Me convidou para entrar e me ofereceu uma taça de champanhe. Como sou evangélico, não aceitei. Ele me ofereceu, então, um café. Depois ficamos conversando sobre futebol. Ele é vascaíno. Falamos sobre o Vasco. No final, me deu uma bela caixinha. Ele é uma pessoa maravilhosa." Hoje, Alves é subgerente do Degrau. "Quando o João Gilberto quer fazer algum pedido é pra mim que ele liga. Só fala comigo. Ele gosta de um bom bacalhau ou de um badejo", conta. "Quando tem algum pedido do João, os entregadores adoram. Ele é muito generoso." A fama de "mão aberta" já é uma lenda entre os entregadores de comida do Leblon. Fala-se em caixinhas de R$ 10 a R$ 50 (além da simpatia e do convite para o cafezinho). Outro entregador, o Paulo Souza, 51 anos, confirma tudo. Há muitos anos no Restaurante Le Coin, também do Leblon, Souza diz que já subiu no apartamento de João. "Ele pedia muito picadinho. Agora, faz tempo que não pede. Acho que brigou com o gerente do restaurante. Até onde eu me lembro, a casa dele é bonita, mas não tem exagero. Não tem frescura de grã-fino. Ah, e a caixinha é maravilhosa", diz. Aparentemente, o maior contato de João com o mundo externo se dá através dos entregadores de comida. Tocamos o interfone A reportagem do JT foi tentar a sorte. Tocamos o interfone do prédio do João. Infelizmente, não existe um contato direto com o apartamento dos moradores, apenas com a portaria. Ainda assim, o porteiro permitiu que entrássemos no hall do edifício (mas sem fotos). "Aqui, fazemos o nosso trabalho. E o nosso trabalho é não deixar ninguém incomodar o morador", diz Francisco Regis, 29 anos. Quando João vai receber alguma visita, ou um entregador de comida, ele avisa antes a portaria. Sem esse contato prévio, ninguém está autorizado sequer a tocar o interfone do apartamento. As visitas mais famosas ao João foram, segundo moradores, Miúcha (ex-mulher), Bebel Gilberto (filha), Caetano Veloso e Chico Buarque. Outro funcionário do prédio que fala um pouco sobre João é o garagista, José Benito de Souza, 62 anos. "Ele não dirige. É sempre um carro de vidro preto ou um táxi que vem buscá-lo. Aliás, dizem que é sempre o mesmo taxista. Não reparei. Ele é um homem muito educado e querido por todos aqui", avisa Souza. Informalmente, a reportagem descobre que o esquema das "caixinhas" generosas funciona também com os funcionários do prédio. A rede de proteção a João Gilberto é sustentado por agrados de R$ 10 ou R$ 20. Os vizinhos são só elogios ao morador ilustre. Todos destacam sua educação no elevador. "Tem sempre um bom dia, boa noite ou boa tarde", comenta a produtora de cinema Glória Carvalho, 40 anos. A única reclamação dela é, pasmem, em relação à falta de barulho. "Eu sou a vizinha de cima, moro no nono andar. Juro que eu queria que ele tocasse aquele violão mais alto. Infelizmente, nunca ouvi o violão do João. João, toca mais alto!", protesta a vizinha. Segundo Krikor Tcherkesian, ex-advogado, ex-empresário e amigo íntimo de João Gilberto, ele toca, sim, o seu violão no apartamento. "O João canta de 14 a 16 horas por dia. Ele fica ensaiando, procurando a nota. Ele ficou anos tocando Menino do Rio. Tocou umas 500 vezes a música até achar que ela estava perfeita."  Krikor explica que difícil mesmo é fazer com que o músico toque fora de casa. "Quando o João toca violão fora da casa dele, ele fica preocupado se tem algum microfone escondido gravando suas músicas, suas composições." O amigo e ex-empresário também conta que a vida do pai da Bossa Nova começa às duas da madrugada. "Nesse horário ele começa a ficar ativo. Quando tem amigos na sua casa, ele mostra as músicas. Ele diz: ‘Escuta essa, olha isso, escuta essa nova’. E assim ele vai, madrugada adentro." Você já viu o João? No prédio, não conseguimos mais nada. O jeito foi percorrer os arredores e sair perguntando: "Você já viu o João Gilberto por aí?". O primeiro a responder a pergunta foi o jornaleiro Edmilson de Almeida, 37 anos. "Se eu já vi o João Gilberto? E você, já viu uma nota de duzentos?", brinca. Mesmo assim, Almeida garante que viu João uma única vez. "Ele saiu com uma pasta embaixo do braço e ficou conversando com um homem, que parecia ser um empresário. Eu acho que eles estavam conversando sobre shows ou dinheiro", lembra. Em um simpático café, pertinho do prédio de João, as atendentes falam sobre o gênio da Bossa Nova. "Aqui, a gente só encontra a Miúcha, ex-mulher dele. Eu acho que ele não deve gostar muito de café", analisa a balconista Luzia Quirilo, 32 anos.  Percebemos que encontrar João Gilberto é uma espécie de prêmio ou, como disseram alguns vizinhos, uma bênção. Por isso, muitas lendas surgiram ao redor do edifício Jardim Leblon. Por exemplo, os guardadores de carro da região garantem que existe um sósia do músico circulando pela Rua Carlos Gois. "Toda vez que o João vai sair, um sósia desce primeiro e despista todo mundo", garante Antônio de Souza, 41 anos, 20 deles trabalhando bem em frente ao prédio de João Gilberto.  "Ele adorava dirigir. Pegava o carro e saía pela madrugada dirigindo. Hoje, João não dirige mais por dois motivos. Porque já está com mais idade e porque não ia ficar legal ser assaltado no semáforo ou morto por algum bandido", comenta o amigo Krikor. Na videolocadora, localizada embaixo do prédio, uma atendente (que pediu para não ser identificada) conta que uma mulher jovem costuma retirar vídeos para João Gilberto. Que tipo de filme o músico assistiria em casa? "Comédias leves", revela a atendente. A história mais surreal de todas, no entanto, é a do vendedor de coco Severino Avelino, 39 anos. O homem trabalha para uma barraca na praia do Leblon chamada João. "Nada a ver com o João Gilberto. João é apenas o nome do dono da barraca", explica. Avelino afirma que já serviu uma água de coco para João Gilberto. "Ele estava sem camisa e de bermuda, sentado de frente para o mar. Eu ficava levando coco pra ele. E ele tomando sol e curtindo a praia." (colaborou Felipe Branco Cruz)

Tudo o que sabemos sobre:
Bossa Nova

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.