Sony Music/Divulgação
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Alex Kapranos na pista

O cantor fala sobre o novo disco do Franz Ferdinand, que mostra canções inéditas no Lollapalooza, semana que vem

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

23 de março de 2013 | 07h00

Ritmo e pandemônio marcaram o eletrizante show do Franz Ferdinand na última passagem da banda por São Paulo. Na ocasião, um evento gratuito e lotado no Parque do Ipiranga, spray de pimenta e gás de efeito moral foram usados pela polícia para conter o tumulto de fãs deixados de fora, que ameaçavam invadir o parque. Não houve feridos. Mas Alex Kapranos, líder do Franz, depois de uma aula de dance punk para as massas, criticou a Polícia Militar no Twitter. "Este é o pior medo de um músico. Se alguém se machuca, é difícil lavar as mãos. Teria estragado uma experiência incrível", conta o guitarrista, via chat, de seu estúdio em Glasgow.

O Franz aterrissa em São Paulo na próxima semana para um show no festival Lollapalooza, no sábado. Se tudo der certo, o grupo repetirá a sua esfuziante e infalível receita musical, desta vez, sem choques com a PM. Embora há dez anos em turnê, vinculados a uma sonoridade que se tornou carne-de-vaca, é raro ouvir um show insosso da banda. São ícones de uma geração indie, heróis de um público cujo gosto musical é cada vez menos definido por uma única proposta musical. Frutos da fragmentação sonora dos novos tempos.

O grupo representa uma era, e o faz com a competência de veteranos em plena forma. Agora que o LCD Soundsytem está aposentado, o Franz é dos últimos moicanos do punk funk. Os verdadeiros entre um oceano de plágios.

Enquanto tecla com a reportagem do Estado, Kapranos ouve as faixas do novo disco, o primeiro do Franz Ferdinand em quatro anos, que sai no segundo semestre de 2013.

E aí? Como está o som? "Está soando como um disco do Franz Ferdinand!", responde, sem ser solícito, mas explica: "Testamos novas técnicas de composição, coisas que não fazíamos antes. Mas não quero entediar vocês com os detalhes. O que posso dizer é que são muito boas de tocar. Ensaiamos sempre. Talvez seja um bom indicador".

Os que vão ao show poderão ouvir o novo repertório em ação. Mesmo assim, os detalhes de como foram feitas são, sim, importantes.

Depois de um período de ócio na conversa, Kapranos volta ao chat. Peço mais detalhes sobre seu processo criativo durante a composição do novo disco. "Nick e eu nos ligamos muito em modulação (a mudança de um tom musical para outro). Isso faz com que a proposta de uma canção mude sutilmente sem que o ouvinte perceba."

O approach na confecção das melodias também foi trocado. Em vez de escrever uma música do começo ao fim, Kapranos inverteu o processo. "Em algumas faixas, a música foi escrita por último, bem depois de eu descobrir qual seria a intenção da música, e qual seria a história que a letra contaria. Foi uma experiência nova para mim", conta ainda.

Discos do Franz Ferdinand são gravados de maneira rústica, pois se trata de um dos grandes grupos para se assistir ao vivo, nos últimos tempos. A produção é crua, quase inexistente. O processo é propositalmente decupado. Um engenheiro de som conecta o microfone, aperta o botãozinho vermelho, e pronto. "Usamos umas técnicas diferentes, mas não conseguimos fugir de capturar o som da banda ao vivo. É assim que nos damos bem: respondendo ao que cada um faz, em tempo real", explica ele.

Em um show para poucas pessoas em Glasgow, no clube Nice n’ Sleazy, início do mês, a banda mostrou sete de suas novas músicas em um pocket show de 40 minutos. Evil Eye, uma das novas, lembra Parliament Funkadelic em seu flerte com sintetização psicodélica. Logicamente, a base é seca. Abusa do funk anglo-saxônico que o Franz Ferdinand herdou de Gang of Four e Talking Heads. A Telecaster de Kapranos está, como sempre, afiada, desferindo riffs farpados sobre o acompanhamento enxuto de seu grupo. The Blackpool Iluminati, outra nova, bebe em fontes mais clássicas, lembrando bandas pré-punk como Television (vem à mente a pulsação do grupo protótipo do gênero, Death, com seu suingue rock and roll) Em evidência, como sempre, está o talento de Kapranos para a composição de refrões talhados para um show de 40 mil pessoas. Em dez anos de banda, a receita do Franz pouco mudou. Não precisava. Bandas de rock dançante com presença de palco são escassas.

LOLLAPALOOZA

Jockey Club. Avenida Lineu de Paula Machado, 1.253. De 29 a 31, a partir das 12h30. R$ 350/ R$ 990 - www.lollapaloozabr.com.

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