Chad Batka/The New York Times
Chad Batka/The New York Times

Alessia Cara estoura com hit sobre festa malsucedida

Jovem canadense de 19 anos é autora de 'Here', considerada a música pop do ano

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

07 de dezembro de 2015 | 06h00

Considerada a música pop do ano por algumas publicações especializadas, como a New Musical Express (NME), e até pelo jornal The New York Times, Here fala diretamente com os desajustados. Aqueles impopulares. Aqueles que, em uma festa cheia de adolescentes, é sempre fácil de reconhecer. Ficam no canto da sala, sozinhos, enquanto todo o resto está se divertindo.

Alessia Cara tinha 16 anos quando essa história aconteceu com ela. Assim como tantos outros, ela se viu sozinha num canto qualquer. Canta, em Here, sobre um sentimento de inadequação, uma timidez esparramada, ao mesmo tempo que parece não se importar em parecer antissocial diante da turma de populares – qualquer um que tenha cursado o colegial, sabe como os adolescentes se dividem em castas e os populares se sentem na mais alta delas.

Here catapultou a jovem Alessia para o estrelato. Ela, de Brampton, em Ontario, no Canadá, para as páginas do The New York Times, como a voz dessa parcela de jovens. O artigo coloca a canção como um hino antissocial, no bom sentido, que dialoga diretamente com Royals, da neozelandeza Lorde, e You Belong With Me, da norte-americana Taylor Swift. “São músicas que cantaram o outsider de forma tão contemporânea que foram capazes de catapultar as cantoras das margens da música pop diretamente para o centro”, diz o texto publicado em maio deste ano.

Mais do que pop, Alessia bebe exaustivamente da fonte do novo soul, algo que passa por uma linha hereditária desde o sucesso das inglesas Amy Winehouse e Adele (muito mais a primeira do que a segunda, aliás), e desembocou na Lorde, surgida há dois anos.

Na ocasião da publicação do NYT, Alessia surfava a onda do sucesso viral. Here explodiu em visualizações no YouTube e em streaming. Somente no serviço de música por assinatura Spotify, a cantora atingiu o topo da lista Global Viral Chart, que é justamente um termômetro para encontrar esses sucessos improváveis, espalhados pelo globo. 

Do Canadá, ao telefone, Alessia se mostra tão tímida quanto se estivesse em uma festa cheia de jovens da mesma idade. Dá respostas curtas, embora objetivas. É a timidez da garota que a trouxe ao ponto da mais nova promessa da música pop. Sem coragem de cantar diante dos outros, a garota, então com 13 anos, decidiu publicar vídeos seus no YouTube.

No primeiro, interpretava uma canção da britânica Jessie J., Price Tag, e depois seguiu com interpretações de Adele (One and Only), Amy Winehouse (Stronger Than Me), Maroon 5 (Payphone), Lana Del Rey (Summertime Sadness), Gnarls Barkley (Crazy), entre tantos outros.

Eventualmente, um dos vídeos chamou a atenção dos executivos da EP Entertainment, empresa que trabalha ao lado da gigante Universal Music, e Alessia foi levada para trabalhar com Sebastian Kole, para preparar canções que estariam no primeiro disco dela.

Kole já havia produzido Goin’ In, hit de Jennifer e Flo Rida e, em 2012, foi contratado pela empresa justamente pelo conhecimento de gravação. Kole foi até Toronto e recebeu Alessia em um estúdio pequeno, a 30 minutos de carro da casa da moça. “Foi um aprendizado”, conta a garota. “Não sabia fazer música, em si. Então foi uma experiência divertida passar aquele tempo lá. Gostei da experiência.”

Em uma semana, Alessia já tinha o esqueleto de Four Pink Walls, EP de cinco músicas (Here entre elas, é claro), lançado em agosto nos EUA. No Brasil, o trabalho já está disponível em plataformas virtuais, como serviços de assinatura e iTunes. “Foi um processo bastante rápido. Fizemos aquelas canções. Continuei trabalhando fora do estúdio. Depois, fomos para Nova Jersey e Los Angeles.”

Além das cinco canções do Four Pink Walls, ela produziu mais cinco, que integram o primeiro disco de estreia da moça, Know-It-All, também lançado em território norte-americano, em novembro, mas que só chega em mercados internacionais (Brasil entre eles, entenda), em março de 2016.

“Fazíamos exercícios de composição, porque compor não era algo fácil para mim. Eu dizia quais temas eu gostaria de cantar e ele me ajudava a transformar isso em canções”, ela conta. “Na verdade, compus algumas coisas quando era mais jovem. Mas não era nada de bom”, ela ri.

O desafio, no estúdio, era encontrar a temática que ela gostaria de abordar nas suas canções. “O mais difícil foi isso, sem dúvida, porque queria ser honesta com tudo aquilo que fazia, entende? É importante para mim falar sobre assuntos que são relevantes para mim e para pessoas da minha idade.”

Alessia é símbolo de uma geração nascida já na segunda metade dos anos 1990 (acredite, ela nasceu em 1996), e já não depende dos familiares para criar sua base musical desde cedo. “Meus pais ouviam música, mas não vim de uma família musical ou coisa assim. Mostraram-me o básico, Queen, Beatles, coisas assim.”

Tanto o EP quanto o disco retratam o jovem e o desconforto social, a geração que prefere encarar a tela do smartphone do que o outro. Para alguém tão tímido quanto Alessia, até as apresentações ao vivo foram um problema no início. “Vai ficando mais fácil com o tempo”, diz ela. No palco, ela não tem a chance de ligar para a mãe e pedir para ir buscá-la, como na festa que originou Here.“O nervosismo é algo legal agora.” 

ALESSIA CARA. ‘Four Pink Walls’. Universal Music; R$ 12


Tudo o que sabemos sobre:
MúsicaCulturaAlessia Cara

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.