Alcione lança álbum de inéditas

Fosse no tempo do elepê, o novo disco de Alcione, A Paixão Tem Memória, o 30.º de sua carreira, teria um lado de sambas e outro de baladas e boleros de dor-de-cotovelo. O repertório, 12 músicas inéditas e duas já gravadas sem muita repercussão, se divide entre os dois estilos, para agradar aos dois grupos de fãs: os que gostam da sambista cheia de suingue, descobridora de talentos que povoam os pagodes dos subúrbios, e os que preferem a cantora romântica, de clássicos como Nem Morta ou Qualquer Dia Desses. Alcione dá outra explicação. "Sempre gravei de tudo e andei na contramão do sucesso. Nos anos 70, quando ninguém gravava sambas, lancei Ney Lopes e Altay Veloso. Na década de 80 quando o pagode estourou, gravei Nem Morta, o maior sucesso", comenta. "Desta vez, eu quis um disco com repertório inédito porque passei quatro anos sem lançar nada novo. Não foi fácil, porque ouvi mais de 700 músicas e encontrei pelo menos cem que valiam a pena. Dava para fazer quatro discos ou era preciso haver três Alciones para dar conta." Para os sambas, ela chamou a nata dos instrumentistas do gênero. Os arranjos são de Ivan Paulo e Jorge Cardoso, para o cavaco de Alceu Maia, o violão de Cláudio Jorge, o baixo de Jamil Joanes e a percussão de Gordinho, Esguleba e Jorge Gomes. Aí há mais variedade de estilos, do fundo de quintal, como O Que Deus Leva e Bate-Boca, ao samba-exaltação Dona Neuma a Rosa, sem esquecer o samba de roda (Pedra de ResponsaA Dor Que me Visita. De quebra, ainda há um forró, Você Endoideceu meu Coração, que vai agradar à rapaziada que não perde um baile do gênero. Já as músicas românticas seguem sempre a mesma trilha. Teclados e sopros fazem a introdução para Alcione repetir a música duas vezes: a primeira do jeitinho que foi composta e a segunda, cheia de improvisações, vocalises e malícia. Mesmo que a melodia deixe a desejar, a Marron é imbatível inventando nuances que sequer foram imaginadas pelos compositores, todos de seu caderninho, Michel Sullivan, Paulo Sérgio Vale, Chico Roque e Ed Wilson, entre outros. "Sempre gostei de improvisar, desde quando cantava na noite no Rio", lembra ela. "É por isso que eu nunca pude puxar um samba-enredo. Nunca repito uma melodia do mesmo jeito na segunda vez que canto. Igual a Leny Andrade e o Emílio Santiago." O que chama atenção nas baladas são as letras. Embora falem de amores perdidos, sensualidade e brigas de casal, servem para Alcione esclarecer sua opinião nesses assuntos. A mulher que sofre as situações dessas músicas é combativa, dengosa e não está disposta a ceder só para ter o amado a seu lado. "Eu sou assim e gostaria que todas as mulheres também fossem. Talvez, se eu tivesse sido mais diplomática, minha vida teria sido mais fácil, mas não acredito em nada que venha sem luta", ensina a Marron. E, nessa batalha, ela se impõe às gravadoras. "Escolho o que gravo porque lanço músicas e compositores. Há muita gente boa compondo e um público ávido por novidades."

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