Alceu reverencia Luís Gonzaga em novo disco

Alceu Valença é um grande personagem, um ser humano representado em forma de arte. Essa éa sua principal face que está exposta especialmente neste momento da carreira, quando lança "Forró Lunar", pela Sony Music. Assuntos fora dessa ordem estão quase que banidos pelo"anjo avesso".Entretanto, Alceu explicou o porquê de voltar a gravar pela Sony - havia deixado a gravadora e, em 1999, lançou "Todos os Cantos" por outra, a Abril Music. Segundo ele, nunca houve problemas com a empresa, mas um desentendimento eterno com omúsico Miguel Ploshi, que já foi diretor na Sony, BMG e EMI. "Saí da BMG porque não nos entendíamos. Entrei na Sony e o homem foi pra lá. Tive, então, de sair de novo. Temos conceitos estéticos totalmente distintos", conta Alceu. "Sou um artista independente.""Forró Lunar" começou com a música "Xote Delicado": "Delicado, dedicado, colorido/ E muito lindo/ E como o Sol e a Lua/ Feito o mistério divino/ O nosso amor/ É transparente comovidro/ Comovente como a vida/ Seguindo no seu destino." A circunstância foi uma visita prolongada à terra natal, a cidade de São Bento do Una, por causa da morte do seu pai. "Desde 1982 eu apenas passava por lá. Desta vez, revi coisas, lugares, amigos, hábitos e o disco começou a aparecer, como uma trilha sonora", explica ele.O rei - Nesse encontro, Alceu reviu também Luís Gonzaga, o seu rei, a sua lua. "É preciso canonizar Luís Gonzaga. É um santo, faz milagre, não só com a música, mas com a culturabrasileira, levando-a aos extremos do Brasil."São Bento do Una e Luís Gonzaga são referenciaisexplícitos na construção de "Forró Lunar". Entretanto, há detalhes poéticos que o tornam especial. Um deles é abordagem temática incomum feita por Alceu nos forrós, pois há canções,uma embolada. Ele, quase que num realismo fantástico, constrói novos mundos, cheios de luas, borboletas e novos personagens. Mas tudo feito por viés muito sutil, já que é um disco da terra,produzido com matéria-prima essencial, instrumentação básica, sem arrojos.Curiosa é a sua interpretação e criação de música para o poema russo "Balalaica", de Maiakovski, adaptado para o português pelo poeta concretista Augusto de Campos. "Considero-a inédita, porque somente o Gorbachev ouviu, quando uma amiga fez um projeto com artistas brasileiros, do qual euparticipava, e enviou-o para ele. Imagina ele dançando?", recorda. "E o interessante é que, agora, essa música me inspirou para compor "Forró Concreto".Com exceção da música "Quando Fugias de Mim", do álbum "Anjo Avesso" (1983), as músicas de "Forró Lunar" são inéditas.Como sempre, Alceu tem mil projetos, mas sente-sesatisfeito somente por criá-los. "Já fico feliz de poder lidar com Lampião, Satanás e muitos outros, tudo no tempo que eu invento, às vezes com lógica, outras nem tanto." No momento, ele está muito empolgado com a nova peripécia: um poema de 145páginas que começa com uma entrevista (o restante é difícil de explicar). Outra ousadia é uma letra que fez para o tradicional frevo Vassourinha, que deve ser uma das faixas de um próximo disco de Alceu.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.