Álbum recria repertório profano da Idade Média

Algumas das canções profanas mais antigas do patrimônio musical do Ocidente encontram-se no CD Music of the Troubadours (etiqueta Naxos). Dois grupos europeus especializados nesse gênero de repertório, o da arte medieval - o Ensemble Unicorn e o Oni Wytars - se reuniram nessa bela antologia de sabor a um só tempo colorido e arcaico, concretizando um disco de audição enredante. A cantora escolhida para cantar e ler os velhos textos, a catalã Maria Lafitte, é um verdadeiro fenômeno, com sua rebrilhante garganta de cigana selvagem, capaz de transformar os antiqüíssimos manuscritos em música muito viva e bem atual.Como se sabe, durante a Idade Média, a música considerada digna de ser colocada no papel, em forma de partitura gráfica, era só a religiosa. Os cantos e danças profanos em geral não mereciam tão alta distinção. Exceção gloriosa é a de parte da produção proveniente da requintada cultura Provençal, situada no sudeste da atual França, onde floresceu durante um certo período a arte complexa e extraordinariamente rica dos poetas-cantores, os trovadores ("troubadours", na velha língua da Provença).Mais tarde, com a destruição dessa civilização por uma Cruzada, a produção poética deslocou-se para o norte da França, fazendo surgir as novas gerações, as dos troveiros ("trouvères").Muitos dos trovadores eram nobres, outros gente do povo. Todos cultivavam uma poesia altamente elaborada que tematizava sobretudo o amor impossível pela mulher idealizada. Tant m´abelis (Eu amo tanto), de Beringuier de Palou, Ar me puesc ieu lauzar d´amour (Agora posso me comprazer ao amor), de Peire Cardenal e Bel m´es qu´eu chant (É bom cantar e amar / Quando o tempo é alegre e doce o ar), de Raimon de Miraval são admiráveis exemplares dessa tendência. Estão no CD essas e uma das mais lindas canções da época, Quand vei la lauzeta mover, de Bernart de Ventadorn (para essa última, o poeta Augusto de Campos providenciou uma radical e linda tradução que começa assim: "Ao ver a ave leve mover / Alegre as alas contra a luz, / Que se olvida e deixa colher / Pela doçura que a conduz, / Ah! Tão grande inveja me vem / Desses que venturosos vejo! / É maravilha que o meu ser / Não se dissolva de desejo").Entremeadas às canções cantadas e/ou recitadas, há nesse disco peças puramente instrumentais que abrem novas possibilidades para os dois grupos exibirem seus múltiplos talentos, inclusive os de improvisação. É notório que a música medieval profana, pela exigüidade de suas partituras, precisa ser literalmente recriada no ato da execução. Munidos de um instrumento variado e saboroso, que congrega rabeca, gaita de fole e flauta doce, dentre vários outros, eles conseguem nos fazer acreditar que suas hipóteses sonoras são válidas.

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