Carlos Magno/Estadão
Carlos Magno/Estadão

Álbum faz homenagem aos 100 anos de Caymmi

Chico, Gil e Caetano vão participar do disco e festejos incluem biografia e exposição

Lucas Nobile, Especial para o Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 18h36

As celebrações que envolvem o centenário de nascimento de Dorival Caymmi (1914-2008) tiveram início em 2013 e vão se estender até o ano que vem. Dentre as várias comemorações programadas para homenagear o músico baiano, nenhuma delas terá tanto peso quanto o disco Dorival Caymmi – Centenário, cujas gravações começaram na semana retrasada e vão se estender até meados de março.

O álbum, com previsão para ser lançado pela gravadora Biscoito Fino ainda no primeiro semestre deste ano, vai reunir clássicos de Caymmi interpretados por seus filhos Nana, Dori e Danilo, além das vozes de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. É a primeira vez em 22 anos que um projeto fonográfico consegue reunir estes três ícones da música popular brasileira em uma mesma faixa. A última foi em 1992, quando eles cantaram a música Bluesette, no disco The Brasil Project, do gaitista belga Toots Thielemans.

"Eu liguei pessoalmente para os três, que aceitaram o convite. O Chico foi de uma gentileza incrível, é muito desapegado. Uma vez, perguntaram para o papai: ‘Caymmi, o que há de novo?’. Ele respondeu: ‘Chico Buarque de Hollanda’", diz Dori. "E sou conhecido do Gil e do Caetano daquela Bahia dos anos 1960. Eu queria reunir os três maiores expoentes da minha geração em termos de popularidade. E disse a eles: vocês já falaram muito do papai, agora está na hora de prestarem serviços ao velho cantando", conta Dori, que assina metade dos arranjos do disco, a cujo repertório o Estado teve acesso com exclusividade.

O restante das músicas foi arranjado por Mario Adnet. As conversas entre os dois arranjadores sobre o projeto tiveram início em 2011, logo depois de Adnet lançar o disco Vinicius & Os Maestros.

"Em 1999, eu entrevistei Dorival para uma matéria sobre os seus 85 anos. Antes, eu tinha feito o arranjo de Maracangalha, que o Tom acabou gravando no último disco, Antonio Brasileiro (1994). E Dorival me disse baixinho: ‘Conte com o velho para o que você precisar’. Sinto a maior gratidão por essas palavras e certamente estou contando com a ajuda dele agora", comenta Adnet.

O violonista fez os arranjos de sete composições do Dorival para o disco, entre elas, A Vizinha do Lado, que será cantada pelo próprio Adnet. Ele ainda arranjou Canção da Partida (com todos cantando), Dora, que será interpretada por Chico, João Valentão, por Dori, Sargaço Mar, por Nana, Saudade da Bahia, por Caetano, e Samba da Minha Terra, por Gil.

"Sempre que vou fazer um trabalho desses, faço uma imersão, pesquiso, ouço as gravações originais, o Caymmi tocando. O Dori é filho, já tem a intimidade com a obra de Dorival por osmose. Eu sinto mais o peso da responsabilidade, não estou aqui para desconstruir ninguém. Tenho sentimento em relação à memória", diz Adnet. "Existe uma comparação boa entre o Caymmi, na música, o Jorge Amado, na literatura, e o Carybé, na pintura. Vamos tentar passar essa coisa bonita das cores do Carybé, a riqueza da palavra singela do Jorge Amado", completa o arranjador.

Já Dori assina outros oito arranjos, entre eles, O Bem do Mar, cantada por ele, que também arranjou A Lenda do Abaeté, por Nana, Marina, por Chico, Nem Eu e Vatapá, por Danilo, Rosa Morena, por Gil, Sábado em Copacabana, por Caetano, e O Que É Que a Baiana Tem?, nas vozes de Chico, Gil e Caetano.

Banda. "Começamos as homenagens em 2013, porque 2014 é ano de Copa do Mundo, aí já viu, né? Com todas aquelas leis (de incentivo), ninguém vai botar dinheiro num projeto que não seja ligado à Copa do Mundo neste ano", diz Dori. "Em relação aos arranjos, eu determinei algumas coisas. O Que É Que a Baiana Tem?, achei que ia ficar bacana com Chico, Gil e Caetano, mas vai ser uma coisa menos Carmen Miranda e o Bando da Lua, vamos brincar com a divisão, vai ser mais João Gilberto. Eles me passaram as tonalidades e ficou tudo certo."

Na formação instrumental, o disco vai contar com uma banda base (baixo, bateria, violão, piano e percussão), mais sopros e cordas, com regência de Claudio Cruz, da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), que já trabalhara anteriormente com Adnet. As vozes serão gravadas em março, depois do Carnaval.

"Eu não tenho muita enrolação, não. Gosto de gravar as bases em três dias, não fico ‘michael jacksiando’ o disco, burilando muito, senão perde a espontaneidade", comenta Dori. "Eu nunca gostei do meu pai com orquestra, aquele não era ele. O Caymmi que eu conheci foi Caymmi e o Seu Violão. Em relação às músicas, sou vidrado nas canções praieiras. Desse disco novo não sei muito o que esperar, de bom gosto vai ser, tenho procurado usar a beleza estética do violão dele", diz ele.

Além do disco, o projeto também inclui shows, reunindo os participantes do álbum, em 2015, ainda sem datas definidas, em São Paulo, Rio e Salvador. Como os custos para um espetáculo deste porte são muito altos, eles ainda buscam patrocínio para a realização dos shows.

 

 

Centenário terá desfile, biografia e exposição

Os tributos ao centenário de Dorival Caymmi não serão apenas musicais. A série de homenagens ao compositor baiano contará também com uma exposição no Centro Cultural dos Correios de São Paulo e de Brasília. "A mostra terá um perfil menos cronológico, vai focar mais nos temas das músicas, mais nas imagens que aquelas músicas plasmaram nas cabeças das pessoas", diz Stella Caymmi, neta de Dorival.

Também neste ano, a biografia Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo, escrita por Stella, será reeditada pela editora 34. O acordo foi anunciado na semana passada. O novo volume terá algumas mudanças em relação ao original, de 2001. "A atualidade da obra dele é impressionante, as músicas são muito contemporâneas. Diferente dos compositores da época dele, sem tirar o grande valor que eles tiveram, as músicas do meu avô não são datadas, isso é muito raro", comenta Stella.

Segundo ela, há uma série de atividades relacionadas ao centenário em planejamento. Uma delas é o projeto de uma Semana Caymmi, que prevê uma exposição com caráter educativo e didático (para os mais jovens), shows e debates sobre a obra de Dorival. Mas nem todos os projetos estão confirmados para chegar ao público. Entre eles, o de maior fôlego seria um livro, também de autoria de Stella, com entrevistas feitas por ela com o avô. Ao todo, a jornalista tem mais de 80 horas de material gravado em conversas com Dorival.

"Comecei a entrevistá-lo em 1990. O livro seria algo na linha de As Entrevistas de Caymmi, em que ele fala sobre tudo", diz Stella. "Preocupada em não perder esse material, peguei a bolsa que ganhei do meu doutorado, que também foi sobre o meu avô, e banquei a digitalização. Fico impressionada, em pânico, ao ver que nenhuma editora topou fazer este projeto ainda."

Ainda em relação às homenagens musicais, o compositor será homenageado no carnaval de São Paulo pela Águia de Ouro com o samba-enredo A Velha Bahia Apresenta o Centenário do Poeta Cancioneiro Dorival Caymmi.

 

"Ele revelou um Brasil brasileiro", diz Gilberto Gil

Qual a importância do Dorival Caymmi na sua vida?

Ele foi das primeiras coisas pelas quais me apaixonei, um dos primeiros artistas a me despertar. Luiz Gonzaga e ele foram os primeiros a me despertar uma paixão, a paixão que ajudava a decifrar o que eles próprios faziam, de brasileiro profundo.

Na música era ele, na literatura o Jorge Amado e nas artes plásticas o Carybé...

Essa turma era uma coisa impressionante. E o candomblé, eles todos devotos, compreendendo muito essa importância. Quando eu fiz o show da virada de ano com Caetano, lá em Salvador, por coincidência era ali no Largo da Conceição da Praia, e eu lembrei a Caetano de nós cantarmos Festa de Rua, composição do Caymmi, e a gente comentava exatamente sobre essa composição e sobre todas as outras coisas dele. Esse extraordinário caráter civilizador que a música dele tinha com relação a aspectos até certo ponto difíceis por causa dessa dificuldade toda que é a cultura negra, e o papel do negro, a dificuldade que essas coisas tiveram pra se firmar, para obter o reconhecimento mental da inteligência brasileira, ainda que já tivessem entrado pelo coração, mas a mente brasileira só mais recentemente é que veio a entender isso. Caymmi foi fundamental, junto com os outros, acadêmicos, escritores, você citou Jorge Amado, você citou Carybé, que era argentino, veio e se apaixonou, (Pierre) Verger... Caymmi pertence a essa plêiade de responsáveis pela revelação de um Brasil brasileiro.

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