Álbum do Tindersticks ganha edição nacional

É uma grata surpresa assistir à chegada do grupo britânico Tindersticks ao mercado nacional - ainda que em atraso de dez anos de carreira e seis álbuns lançados. Simultaneidade é mesmo um desejo inconseqüente. De qualquer forma, a Sum Records põe nas prateleiras tupiniquins o belo Can Our Love... (lançado pela Beggars Banquet, na Europa e nos EUA, no fim de junho). São oito canções registradas entre novembro de 2000 e janeiro de 2001 no Eastcote Studios em Londres. Há muito o que se comemorar.Como de costume, Can Our Love... segue na tradição "tristes músicas de amor" celebrada por gente como Nick Drake, Leonard Cohen e Tim Bucley, mas de uma maneira instigante e absolutamente particular. Algo entre o pós-punk, o spaguetti western e a música de cabaré.Outra dessas particularidades é a predilação do Tindersticks pela quase obscuridade. Explica-se. Desde o início das atividades em 1992 na cidade de Nottingham, o sexteto composto por Al Macaulay (bateria e percussão), David Boulter (piano), Dickon Hinchliffe (violino), Mark Colwill (contrabaixo), Neil Fraser (guitarra) e Stuart Staples (voz, guitarra e orgão) se ateve radicalmente às composições densas, turnês e gravações. As informações mais prosaicas eram, e são, suprimidas dos álbuns.Nome dos integrantes no encarte nem pensar. Nas capas dos álbuns e inúmeros EPs, gravuras e imagens enigmáticas apareciam no lugar das fotos. Os primeiros videoclipes também não ajudavam na identificação de quem era quem na banda. "Acho doentio esse interesse na vida pessoal dos artistas, somos apenas músicos e isso é o que importa", diz, em tom grave, o vocalista e principal compositor, Stuart Staples, nos bastidores do Bowery Ballrom momentos depois de um recente show em Nova York.Já que não há release oficial, nem perda de tempo com informações frívolas, como Staples definiria a própria música? "Eu não faria isso de maneira nenhuma. Prefiro deixar as impressões para quem ouve. O sentimento das pessoas é o que mais me interessa", diz ele, que já foi chamado pela imprensa britânica de "o crooner da melancolia". "Não sou tão melancólico assim", diverte-se. O que não deixa de ser surpreendente.Can Our Love... é a perfeita ilustração do apreço de Staples pela soul music norte-americana. Não se trata de nenhuma novidade, isso já havia ficado evidente com a gravação de I´ve Been Loving You Too Long, do soulman Otis Redding, em 1994. O disco anterior a Can Our Love..., Simple Pleasure (1999), também flertava com a estética Motown e Stax. Nesse sentido, a balada cadenciada a la Curtis Mayfield, Dying Slowly, e a ótima faixa-título, Can Our Love..., são as mais emblemáticas. O álbum abre espaço também para os vocais de Dickon Hinchliffe, que divide a cena com Staples em People Keep Comin´ Around. Em No Man in the World, Staples faz uma espécie de spoken word antes de entoar a melodia da canção. Cortante é um termo mais tentador para a peça.Cinema - Além da soul music, outra das fixações do grupo britânico é a sétima arte. A proximidade com latas de negativo e os sets de filmagem é tanta que no álbum Curtians (1997) a canção A Marriage Made in Heaven traz um dueto entre Staples e a atriz Isabella Rossellini, a eterna cantora de cabaré desesperada e nua imaginada por David Lynch no filme Blue Velvet. Em 1996, o grupo assinou a trilha sonora de Nenetti et Boni, produção da cineasta francesa Claire Denis, diretora de J´Ai pas Sommeil e Chocolat. O registro traz versões instrumentais das canções do segundo álbum, Tindersticks (1995), e temas inéditos.Um dos singles do período é digno de nota: a tradução para No More Affair. Nela, Staples canta na língua de Serge Gainsbourg: "Plus de Liasons...". Recentemente o grupo retomou a parceria com Claire Denis para interpretar musicalmente as cenas de sexo e morte do filme Trouble Everyday. Em contraposição à atmosfera cool da banda, o longa-metragem narra a história de dois personagens que só se satisfazem sexualmente quando mutilam seus parceiros.O soundtrack da produção estrelada por Vicent Gallo e Beatrice Dalle acaba de ser editado na Europa. Nos Estados Unidos, o álbum será lançado quando o filme chegar às salas de exibição norte-americanas - possivelmente no início do próximo ano. Ainda no campo do audiovisual, é do Tindersticks a faixa-tema de The Sins, drama produzido pela BBC de Londres. Após a estada norte-americana presenciada pela reportagem (duas semanas antes do show do Bowery Ballroom os ingressos já tinham esgotado), a turnê do novo disco está circulando por países como Espanha, Dinamarca, França, Bélgica e Alemanha e estende-se até o fim do ano."Tocar ao vivo é a melhor parte do processo artístico", diz ele. Em tempo: a brava produtora e gravadora mineira Motor Music, que em novembro traz ao Brasil a bela Chan Marshall, do Cat Power, e os texanos alucinados do ...And You Will Know Us By The Trail of Dead, está negociando para que o Tindersticks toque por essas plagas. Segundo os produtores, a história só não se confirmou para este semestre por conta da agenda concorrida já citada. Se depender da boa lábia dos mineiros, um dos grupos mais elegantes do pop europeu aportará em território nacional em 2002.Can Our Love... CD da banda britânica Tindersticks. Lançamento Sum RecordsPreço médio: R$ 23

Agencia Estado,

16 de outubro de 2001 | 11h50

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